quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Projecto de Dissertação de Mestrado, Parte IV, 1.


III º Questão
A origem da obra de arte e o problema da instauração da verdade


1. Algumas des-construções: do Estético ao Artístico e o primado do Ontológico

A questão da exaltação ou hipóstase da Origem, por nós analisada, não é senão uma outra face do “pessimismo cultural” professado por Heidegger, também marcado pelo tema da inautenticidade ou da teoria da alienação, pelo tema da violação da natureza e da decadência da linguagem. A Origem é aqui apresentada como tripla instauração (Stiftung):
a) A instauração da obra de arte é uma “origem” (Ursprung) não fundada, nem explicável ou deductível a partir dos entes pré-existentes, e neste sentido podemos considerá-la como um Dom (Schenkung);
b) A instauração é um começo germinal (Anfang) de uma época historial ou de uma humanidade histórica. Neste sentido é fundação (Gründen);
c) A instauração é um avanço (Sprung), situando-se para além de tudo o que cada época historial mantém como reserva.
Esta teoria triádica da instauração da origem não garante apenas uma espécie de permanência direccional do mesmo princípio em toda a época histórica que rege, mas ainda a sua visibilidade ou transparência desde o seu momento inicial.
Apesar de todas as des-contruções efectuadas por Heidegger aos princípios metafísicos que regem a criação e a apreciação da obra de Arte, cuja reunião se dá aquando da instituição da Estética como ciência que se dedica à reflexão sobre a Arte e sobre os artistas, a tese da instauração artística ‑ que não é senão a tese da instauração da verdade do Ser em obra como origem, dom e fundação ‑ apresenta, no autor, uma íntima ligação com esses princípios metafísicos. Numa longa passagem de Ukw, que vale a pena citar na integra, Heidegger é bem claro a este respeito: “O princípio contém sempre a plenitude inexplorada do abismo intranquilizante, isto é, do combate com o familiar.(...) Sempre que o ente na sua totalidade enquanto ele próprio requere a fundação na abertura, a arte atinge a sua essência histórica como instauração (Stiftung). Esta aconteceu no Ocidente pela primeira vez na Grécia. O que futuramente ‘Ser’ quer dizer foi posto em obra de modo decisivo. O ente, assim aberto na totalidade, foi então transformado em ente, no sentido do que foi criado por Deus. Isto aconteceu na Idade Média. Mas este ente, por seu turno, foi de novo transformado, no início do decurso dos Tempos Modernos. O ente tornou-se objecto calculável, susceptível de ser dominado e devassado. De cada vez, se abre um mundo novo, com a sua essência própria. De cada vez, a abertura do ente requere a sua instituição, pela constituição da verdade na estatura, no próprio ente. De cada vez a abertura do ente se produziu. Ela impõe-se (setzt) na obra; esta imposição (Setzen) é realizada (vollbringt) na Arte.”[2]
Esta passagem indica-nos que: o acontecimento da verdade na Arte realiza-se segundo as modalidades da historialidade metafísica da época que ela abre, pelo que a Arte deverá também participar sempre da Verstellung, quer dizer, na regulação específica de uma época metafísica determinada. Pela célebre interpretação desenvolvida por Heidegger do quadro de Van Gogh ,“Um Par de Sapatos”, verificamos, no entanto, que o quadro enuncia uma verdade que escapa ao horizonte da metafísica, em virtude de revelar apenas o “ser-produto do produto” na sua verdade, e esta verdade é não-metafísica.
Sabemos, no entanto, que todo o século XIX se regeu pelos princípios da metafísica moderna, qual etapa última do esquecimento do ser. Então, perguntamos nós, como é que o quadro de Van Gogh, pintor eleito como representante da “Grande Arte”, pode esquivar-se à lei de um tal esquecimento que marca precisamente a época em que emergiu? Parece-nos mais ou menos evidente que estas duas perspectivas, a da Verstellung metafísica e a da verdade artística, dificilmente podem ser consideradas conjuntamente. São dois caminhos não conciliáveis.
Heidegger parece utilizar a tese da hegemonia dos princípios metafísicos como uma arma contra todas as tendências ou empreendimentos que se dirigem contra o seu questionamento, entre os quais destacamos, por um lado, a ciência e, por outro, a teologia. A sua tese de uma verdade não‑metafísica revelada e des-velada pela obra de arte é colocada num momento anterior ao seu pensar específico sobre a Arte, embora os textos onde o autor desenvolve a variante da teoria especulativa da Arte não renunciem, propriamente, a primeira perspectiva que assinalámos. Nomeadamente quando Heidegger tece as suas análises sobre os poemas de Rilke, em particular sobre as Elegias de Duíno, o poeta modernista apresenta-se inserido na tese da determinação metafísica do dizer poético, embora se distinga o Rilke autor de proposições poéticas e o Rilke pensador do ser.
Esta ambiguidade conceptual é absolutamente afasta das interpretações movidas ao referido quadro de Van Gogh que, limitando-se a revelar a verdade do “ser-produto do produto”, não faz qualquer referência a qualquer determinação metafísica desta verdade que em si mesmo traz à luz, antes de mais porque o quadro limita-se a mostrar o que pensa o pensador do ser, ou seja, uma verdade que escapa completamente às determinações metafísicas.
Neste contexto, e como exemplo ainda mais autêntico da mostração da existência, na Arte, de uma verdade não-metafísica, basta recordarmos a posição que Hölderlin ocupa no pensar heideggeriano, que é incontestavelmente a mais relevante. Embora o empreendimento poético de Hölderlin, não um poeta modernista como Rilke, mas um poeta romântico, parta do idealismo absoluto seu contemporâneo, a obra tardia de que se ocupa o nosso filósofo constitui, em si mesma, um grandioso salto do horizonte metafísico para o universo da poihsiz, da Dichtung, ou seja, para o universo do Ser. Hölderlin é, pois o interlocutor privilegiado do nosso pensador, que pensa para além da metafísica a partir do seu fim, sempre através de um retorno às origens gregas tal como é frequente no “poeta do poeta”.
Ora, a determinação da Arte como origem absoluta, situa-se precisamente nesta perspectiva da instauração de uma verdade essencial, originária ‑ a verdade do ser ‑ que escapa à historialidade da metafísica. Porém, não esqueçamos que desde que a Arte é concebida unicamente como origem historial particular, quer dizer, origem de uma época dada, o seu estatuto torna-se, naturalmente, ambíguo. A Arte possui um papel privilegiado, uma vez que constitui um começo historial, ao qual, apesar de tudo, não se podem esquivar as interpretações do autor, que reiteram esta mesma ambiguidade quando afirma, a um tempo, a determinação da Arte como origem absoluta e da Arte como origem historial: “Sempre que a arte advém, quer dizer, quando há um princípio (Anfang), dá-se na História (geschichte) um choque (Stob): a História começa ou recomeça de novo. História não quer dizer aqui o desenrolar de quaisquer factos no tempo, por mais importantes que sejam. A História é o despontar de um povo para a sua tarefa (die Entrückung eines Volkes in sein Aufgegebenes), como inserção no que lhe está dado”[3].
Por isso é que a tese segundo a qual “Die Kunst ist das Ins-Werk-Setzen der Wahrheit”, quer dizer, “a Arte é o pôr-em-obra da verdade”, tese defendida inicialmente pelo filósofo (em regime de um carácter de exclusividade), encerra em si mesma a ocultação de uma ambiguidade essencial, em virtude da verdade não ser conceptualmente concebida de um modo linear: a verdade é, a um tempo, sujeito e objecto do pôr em obra. E como sujeito e objecto são termos inapropriados para nos referirmos a este pôr da verdade, a ambiguidade desta tese permanece inexplicável, dando de imediato lugar à formulação da tese que visiona a Arte na sua essencialidade histórica: “Die Kunst ist geschichtlich und ist als geschichtlich die schaffende Bewahrung der Wahrheit im Werk”, ou seja, “a verdade é histórica e, enquanto histórica, é salvaguarda (Bewahrung) criadora da verdade na obra”[4].
Mas o nascimento de um novo princípio metafísico também é um choque historial e, por isso, não nos é possível determinar um critério absoluto que nos garanta incondicionalmente que a Arte, na medida em que abre o Mundo de uma época determinada, escape, de facto, à Verbergung metafísica que caracteriza essa mesma época. No entanto, para Heidegger, é unicamente sob a forma de origem absoluta que a Arte é realmente Arte, ou seja, revelação não dissimulada do Ser. É segundo esta perspectiva que podemos entender as des-construções estéticas heideggerianas.


Notas:
[1] “A arte deixa emergir a verdade. Num único salto a Arte faz surgir na obra, enquanto salvaguarda, a verdade do ente. Fazer surgir qualquer coisa repentinamente conduz ao ser, a partir da proveniência essencial, no salto instaurador, eis o que para nós significa o termo Origem”.(Martin Heidegger, op. cit., pp. 65 - 66).
[2] Idem, pp. 64 - 65.
[3] Idem, p. 65.

Projecto de Dissertação de Mestrado, Parte III

IIª Questão:
O retorno às coisas e a questão da origem: As determinações essenciais da Arte e da Técnica

Através da obra abre-se o Mundo de um povo histórico e revela-se a Terra na sua dimensão ocultante/des-ocultante, que indica e desprende o olhar cativo para o outro lado das coisas, para o começo, para o retorno às coisas e ao momento da sua proveniência essencial.
Esse retorno às coisas, à origem, aparece aqui como o caminho do des-velamento essencial. Aliás, a interpretação heideggeriana constitui esse mesmo caminho, excluindo todos os caminhos anterioremente percorridos pelos pensadores que fizeram a história da Estética, a história do pensamento metafísico ocidental marcado pelo esquecimento do Ser, que Heidegger pretende renomear, essencialmente, regressando à origem do pensar e do dizer do Ser, à origem desses momentos excelsos da poesia pensante inaugurada pelos gregos num tempo outro, num tempo inaugural onde o ser do ente era dito na sua autenticidade radical.
O segundo Heidegger é o da fidelidade a esse retorno, a esse apelo que as próprias coisas enquanto tais nos dirigem incessantemente; é o da fidelidade ao mundo grego anterior ao nascimento da metafísica. Mas, as “coisas” de que aqui se fala não se apresentam como “objectos” de uma consciência transcendental, à maneira husserliana. São aquilo que se dá no seu pleno desabrochar, num florir de um tempo inaugural a partir do “abrigo” da Terra.
É verdadeiramente admirável a confiança que Heidegger depositou na fase inicial do pensamento grego da Terra, qual fundamento inesgotável e origem de todas as coisas, qual des‑velamento abrigante, prevenindo-nos que o destino que foi aberto há mais de vinte séculos contém, ainda, em aberto um conjunto de possibilidades, a partir das quais as nossas decisões hodiernas se tomarão.
Depois do aparecimento da técnica, última possibilidade da metafísica, o único caminho que autenticamente permanece para nós em aberto é o da habitação poética da Terra, que corresponde à habitação originária do homem degenerada pelo advento da técnica dos Tempos Modernos, embora o abismo, a catástrofe e a crise se tenham instalado nesta civilização que perdeu o sentido do começo e a dimensão da importância de permanecer no abrigo da Terra aberto pelas coisas dadas no seu momento de instauração inicial.
Sófocles já nos havia lançado neste caminho pelo exposto no segundo coro de Antígona, em particular no V. 332[1] da Estrofe I: “Polla ta deina kouden anqrwpon deinoteron pelei“, quer dizer, “Múltiplo o inquietante (deinoteron), nada contudo para além do homem, mais inquietante”. O termo a destacar é deinoteron, adjectivo comparativo de deinoz, correspondente ao termo alemão “Unheimlich”, comummente traduzido por “inquietante”. Porém, bem mais do que inquietante, “Unheimlich” significa, no seu sentido mais radical, o “fora-do-Ser”, o “fora-de-casa” e, a limite, o “fora‑da-identidade”. Apenas por intermédio deste simples termo, deinoteron, Sófocles recupera a originariedade da própria origem: o que é terrível, o que provoca pânico no seio da existência, enquanto traço fundamental da “predominância do prepotente”; é o “violento conhecido como aquele que emprega a violência”, sendo a violência o traço fundamental do Dasein. É a própria “actividade de violência” (Gewalt-tätigkeit), esse modo de agir humano contra o Mundo que se manifesta deveras insuficiente e ingrato, até mesmo imoral, para um ser puro; que se apresenta como terrível, como totalmente adverso a qualquer tentativa dignificante da essência do homem.
Falar de inquietude humana não é senão mencionar a condição trágica do homem no seio da existência. Mas trata-se, aqui, de uma inquietude que não é mais tomada no sentido vulgar daquilo que impressiona a sensibilidade, mas como “isso” que exclui o homem para fora da quietude, do familiar, do habitual e, em última instância, para fora de si mesmo. Ser inquietante, podemos afirmá-lo, significa expulsar-se dos limites impostos pela trivialidade da existência, rebater o público como local da dimensão realizante do seu ser próprio. O inquietante é, a limite, o extirpado do seu ser mergulhado nas aparências, o desterrado, o que habita poeticamente sobre esta Terra assim dominada.
Neste começo ‑ onde reside o ser mais inquietante do inquietante, cuja mostração primordial só à Arte cabe, no contexto da obra em análise ‑ a Terra é confrontada com o Mar, cada um a seu modo como prepotentes (deinoz), lutando um contra o outro. E, “enquanto vivente, o homem está inserido na prepotência do mar e da terra (a suprema divindade). É sobre esta vida que roda sobre ela mesma, mas que não habita dentro do seu próprio círculo (...) que o homem atira os seus laços e as suas redes. A toda a ordem ele tenta impor os seus jogos”[2] ‑ por vezes destruidores e esmagadores da ordem inerente à Natureza.
Perante tal destrutividade do reino natural, que a obra preserva e salvaguarda, devemos recusar qualquer posição historicista da crítica ao progresso e manter, com Heidegger, a posição seguinte: como os pré-socráticos, Sófocles sabe que é na origem que se situa a enormidade do homem, pois, o “começo é o que há de mais inquietante e de mais violento”[3].
O nosso vandalismo ecológico não é mais do que uma consequência degenerada e inevitável desta inquietante estranheza inicial que, bem como o poder que ela engendra, precede o homem. Ele é “o mais inquietante porque se refugiou num começo, no qual todas as coisas, a partir de um excesso de riqueza, desembocaram conjunta e violentamente no prepotente”[4]. A inquietude originária encontra o seu fundamento primacial no Da-sein historicamente determinado por um começo, cuja característica principal é ser “Un-heimlich”.
Embora o carácter deste começo seja inexplicável e não nos permita, por isso, desvendar o enigma que a Arte é em si mesma, talvez possamos afirmar que é nesta mesma inexplicabilidade que reside a grandeza do conhecimento histórico da humanidade de todos os tempos des-velado e ocultado pela obra de arte. Não podemos, de facto, obnubilar que a história da humanidade ‑ em grande medida dada a conhecer pelas obras de arte que revelam, a um tempo, o Mundo e a Terra que as viu nascer ‑ não tem sido senão a luta do homem contra o Ser entendido no seu sentido primordial de jusiz. Todos os desastres ecológicos cometidos pelo homem, anunciados neste segundo coro, são provenientes de uma colisão ontológica inicial. E é inevitável que a violência contra o poder dominante do Ser, tenha um efeito destruidor.
Antecipando as correstes ecológicas dos nossos dias, a defesa heideggeriana da santidade do meio ambiente, consagrada pela “Grande Arte”, e o que deve ser a nossa missão de custódia da Terra e dos organismos animais, não se baseia nem na pseudotecnologia nem tão pouco no radicalismo político. Aliás, quando Heidegger cita as razões da existência nos seus contornos reais da Terra, quando traz à luz a lembrança da vida autónoma da matéria orgânica e inorgânica, quando identifica a criação e a edificação autênticas como trazer à presença energias e verdades ocultas, está a pisar um terreno rigorosamente filosófico que envolve, sem dúvida, uma crítica ao conceito de técnica tomado como um todo, a qual não faz mais repousar a sua essencialidade o sentido originário de tecnh, seu fundo e fundamento inicial.
Originalmente, tecnh tinha o seu lugar central no complexo de significações e percepções irradiadas pela jusiz ‑ o ingressar no Ser radiante ‑ e pela poihsiz ‑ a produção (Her-vor-bringen) que faz abrir a floração e promove o desabrochar (Aufgehen) do ente na sua nudez primordial ‑ sendo, por isso, dada como um modo de alhqeia , quer dizer, o que des-vela o que não se produz por si mesmo, o que des-oculta, o que não é dado a descoberto perante nós, termo comunmente traduzido tão só por “Verdade”. Enquanto tal tecnh proclamava, para os gregos uma compreensão da primazia das formas naturais e, não menos do que a Arte, significava dar ser verdadeiro e luminoso àquilo que já era inerente na jusiz.
Tomada neste sentido, tecnh não é propriamente sinónimo de Arte, nem mesmo de técnica, mas de “Saber”. E por “saber” entende-se a “visão primeira e constante para além do subsistente” e, mais radicalmente, “o dispor em obra o Ser como ente que seja sempre tal ou tal”[5], o fazer ver o que é, o apreender a presença daquilo que se paresenta.
Todavia, este significado original do termo foi degradado com a fatal revolução de valores implantada a partir de Platão. Se a técnica do agricultor ou do camponês pintado por Van Gogh, quando a existência rural ainda estava em harmonia com o Mundo, não se apresentava como uma pro-vocação da Terra, a represa que atravessava a corrente viva do rio é, pelo contrário, uma escravização e uma des-construção. As energias, os lineamentos naturais do rio, são forçados a colocarem-se ao serviço escravo das turbinas, através de aberturas artificiais; a flora e a fauna são arruinadas no reservatório inerte. Heidegger qualifica este procedimento levado a cabo pelo dito progresso da ciência/técnica moderna como “Ungeheure”, quer dizer, como algo absolutamente monstruoso, enorme, mas quiçá ao mesmo tempo, colossal e extraordinário.
Não obstante a ambiguidade significante que “Ungeheure” encerra em si mesmo, o termo reveste-se, neste contexto, de uma força verdadeiramente drástica, denotando o violentamente monstruoso (deinoteron). É a provocação (das Herausfordern), que distingue o significado original de dar vida e enriquecer a vida de técnica, do sentido e usos modernos da tecnologia, tomada como modo de exploração drasticamnete descontrolada da Mãe-Natureza, já não respeitada, nem dignificada, mas absolutamente esgotada em nome dos egoístas e irracionalistas desejos manipuladores do Homem moderno.
Desde a engenharia romana, a tecnologia ocidental não tem sido uma vocação, mas uma pro‑vocação, um imperialismo face à Natureza. O homem desafia a Natureza, subjuga-a, impõe-lhe, dramaticamente, a sua vontade desenfreada. Se os resultados obtidos têm sido fantásticos, o preço por eles pago jamais o é. E Heidegger, tal como Sófocles, esse arauto da obra de arte poética original, está bem consciente disso. Porém, o chamado homem moderno parece ter perdido, quiçá por mero comodismo, a consciência da natureza progressiva-regressiva do tão proclamado progresso, face ao qual perdeu a dimensão da necessidade “de fazer um progresso da ideia de progresso”. Aliás, “o progresso deve deixar de ser uma noção linear, simples, segura, irreversível, para tornar-se complexa e problemátrica. A noção de progresso deve comportar autocrítica e reflexividade”, como lucidamente observou Edgar Morin na obra Ciência com Consciência[6]
Entretanto, compreender esse processo da falsa técnica, que teve como resultado imediato o “mascaramento” ‑ Ge-stell ‑ do Ser e fez de nós seres desamparados da Terra, ao colocar a raça humana à beira da devastação ecológica, é, ao mesmo tempo, compreender que a salvação é possível, ou melhor, deve ser possível. É na própria extremidade da crise moderna, anunciada muitos séculos antes por Sófocles, no próprio tempo do mecancismo niilista, qua a esperança se avista. Como afiram Hölderlin , com uma lucidez misteriosa e transparente, “Nah ist/Und schwer zu fassen der Gott./ Wo aber Gefahr ist, wächst/ Das Rettende auch.” ou seja “Perto está,/ E difícil de prender, o Deus./ Mas onde há perigo, cresce/ Também o que salva.”[7].
Esta é precisamente uma das questões centrais colocadas pelo filósofo no Suplemento de UKw, no qual a problemática da Ge-stell emerge ligada à questão da verdade e da produção criadora, termo utilizado pelo último Heidegger para caracterizar o modo de aparição da técnica moderna, tão essencial como a verdade, para a compreensão do pensar heideggeriano sobre a Arte; tão essencial como a noção de produção criadora que não é aqui sinónimo de um obrar a partir do nada ou até mesmo do já existente, mas um receber e não um retirar ou um extrair no interior da referência à des-ocultação.
A palavra Ge-stell que emerge, neste contexto, como a reunião da produção, ou se preferirmos, como o deixar vir ao relevo de uma presença num traçado como contorno ou limite ‑ peraz ‑[8], não constitui proprimanete uma limitação do ente ou um bloqueio do seu ser. O termo grego peraz, no seu sentido originário, não restringe. Ao invés, é precisamente o que permite trazer ao aparecer o próprio presente presentificado enquanto produzido, ligando-se assim a Feststellen, “fixação”, que afasta o sentido moderno de “estatuir” ou de “aparelhar”. Antes de mais diz-nos que o Ser como Ge-stell, assim determinado pelos “Tempos Modernos”, “provém do destino ocidental do ser e não foi excogitado pelos filósofos, mas antes dispensado aos que pensam”[9]. Se Ge-stell não significa propriamente aparelho ou aparelhagem, aclara, contudo, o sentido de morjh como forma (Gestalt). Usado como essência da técnica moderna deriva, pois, do deixar estar adiante experienciado pelos gregos da poihsiz. pelo que a significação e lugar ocupado no pensamento artístico heideggeriano não pode ser desligado da sua concepção de Arte e de obra de arte.
Enquanto traço essencial da técnica moderna, Ge-stell apresenta-se como a pro-vocação e o mascaramento para tudo colocar em segurança; emerge como a “ratio redenda” do “logon didonai“ dos gregos. Torna-se, por isso, a dominação do incondicionado que o mundo da técnica deixa transparecer nesse modo de alienação da jusiz que, não obstante, a “Grande Arte” ainda não deixou morrer.
No entanto, parece-nos indubitável que a complexidade dos problemas deste mundo nos desarma a cada momento. Por isso, urge que nos rearmemos intelectual e eticamente, de molde a que aprendamos a pensar autenticamente essa mesma complexidade. A perda do Futuro talvez seja um ganho, mas apenas se nos consciencializarmos de que estamos a percorrer uma aventura no desconhecido, no misterioso, no indifinivel. É necessário desenvolver a consciência da ambiguidade dos processos técnico-científicos, bem como a consciência da incerteza do nosso próprio destino. Numa palavra, é preciso desenvolver a racionalidade autocrítica no interior da razão universal.
Parece-nos, pois, que o progresso é possivel. Porém, não está garantido por nada nem em lado nenhum. Nenhum progresso, mesmo o já “garantido” é, absoluta e definitivamente adquirido. Como afirma Edgar Morin “O progresso é, de ora em diante, tanto mais valioso quanto não obdece a nenhuma nessecidade objectiva, e não dispõe de nenhuma garantia histórica. Também não devemos acreditar que o futuro está programado, nem devemos tentar programà-lo, mas sim orientarmo-nos em virtude de algumas ideias mestras, nomeadamente da trindade ideal da Revolução Francesa: ‘Liberdade‑Igualdade‑Fraternidade’. E podemos encarar o único grande objectivo: civilizar a Terra.”
O problema da nossa civilização, observado com assaz pertinência pelo sociólogo francês, encontramo-lo denotado justamente em Heidegger nesse seu retorno ao começo ou à inquietude originária de que Sófocles também nos fala. Aliás, “o conhecimento que possuimos do nosso tempo manifesta-se unicamente no prefixo sem forma ‘pós’ ou no prefixo negativo’anti’. E porque estamos na ambivalência profunda de uma era agónica, em que todos os sintomas de morte podem constituir ao mesmo tempo sintomas de nascer.”[10]
Ora, é desta problemática que releva da “Grande Arte” na sua origem, que Heidegger nos fala, quando nos apela para que dirijamos o nosso olhar e a nossa escuta para esse outro lado das coisas que a Arte nos mostra. Como afirma Hölderlin, na IVª parte da Migração (Die Wanderung): “Schwer verläbt Was nahe dem Ursprung wohnet, den Ort”, quer dizer, “Dificilmente o que habita perto da Origem abandona o Lugar”[11]

Notas:
[1] Tradução apresentada por Heidegger do texto “Sein und Denken” na p. 153
[2] Martin Heidegger, op. cit., p. 161.
[3] Martin Heidegger, op. cit., p.162.
[4] Ibidem.
[5] M. Heidegger, “Ser e Pensar”, in Introdução à Metafísica, p. 165.
[6] Edgar Morin, Ciência com Consciência, p. 50.
[7] Hölderlin, Poemas, pp. 406 - 407.
[8] M. Heidegger, “Zusatz”, in Holzwege, p. 72.
[9] Cf. Ibidem.
[10] Cf. Edgar Morin, “A Terra, astro errante”, in Diário de Lisboa, 22 de Fev/90, pp. 16-17.
[11] Cf. Martin Heidegger, Der Ursprung des Kunstwerkes, in Holzwege, p. 66.

Projecto de Dissertação de Mestrado, Parte II


Iª Questão:
A Arte como enigma e o seu visionamento essencial: Sob o signo da origem


Publicada em 1950 em Holzewege, nesses “caminhos que não conduzem a parte alguma”, UKw é incluída nessa obra que não por coincidência se renomeia do mesmo modo que um dos célebres poemas franceses de Rilke, “Chemins qui ne mènent nulle part”, esse poeta iluminado ‑ embora mal-tratado por Heidegger num texto igulamnete fundamental para acompreensão da problemática em estudo, «Porquê os Poetas ...? ‑ que canta como ninguém os extraordinários mistérios da Natureza, os autêntuicos desígnios da Terra, que a Arte exprime de modo verdadeiramente peculiar. O conteúdo significante do poema de Rainer Maria Rilke, abaixo citado, exprime precisamente, parece-nos, o percurso seguido por Heidegger no que concerne especificamente ao seu posicionamento sobre a Arte, a obra de arte e o artista.
Atentemos, pois, nas palavras condutoras do poeta que, tal como Orfeu, se situa entre o reino dos vivos e o reino dos mortos, entre o universo dos Homens e o universo dos Anjos, caminhando entre os íngremes e rudes atalhos, situados “algures entre dois prados”, sem nunca perder de vista o objectivo do seu/nosso caminhar: encontrar a via, o atalho que nos possa levar ate à “rosa‑dos-ventos”, a qual, uma vez encontrada, nos direccionará no sentido da descoberta da chave que abre a porta do des‑vendamento do enigma que a Arte é em si mesma.

“Caminhos que não conduzem a parte alguma,
algures, entre dois prados,
que diríamos que, com arte,
foram desviados da rosa-dos-ventos,
Caminhos que, muitas vezes, não
têm à sua frente nada mais
que não seja o tempo em que se está,
e o puro espaço existente”[1].

Rilke, tal como Heidegger, situa-nos nos Holzwege , no seio dos prados verdejantes em cujos caminhos só conseguimos identificar o “puro espaço existente”, determinar o tempo presente que os envolve. De resto, nada mais para além disso: a encruzilhada não se desfaz à primeira tentativa, antes de mais porque já não conseguimos orientarmo-nos. Perdemos o leme e, por isso, permanecemos à deriva na labirinticidade da floresta. O enigma instala-se; giramos em torno de um círculo fechado que não se abre, nem mesmo perante a mais audaz hipótese do seu próprio rompimento.
Assim se coloca a questão da Arte em Heidegger e da origem da obra de arte, que permanece sempre um enigma, envolvido e desenvolvido por um pensamento cíclico que gira aporeticamente em derredor de três pontos fundamentais: a Arte, a obra de arte e o artista.
Ao invés de se excluírem ou incompatibilizarem, implicam-se mutuamente. A relação endogenamente estabelecida no âmago desta “trindade” é puramente dialéctica, embora determinada pela incessante questão da origem que comanda permanentemente este pensar, em virtude da convicção segundo a qual é na origem que se reúne o que há de mais misterioso, inquietante e sublime.
O modo de apresentação do nosso estudo poderá sugerir que a problematização heideggeriana, enquanto procura relevar a temática ontológica necessariamente subjacente à questão da obra de arte, é, neste intuito mesmo, uma reflexão sem falhas. Porém, adiante o veremos, a reflexão do filósofo sobre a essência da Arte antes desemboca na impossibilidade de superar a mútua implicação metafísica ‑ questão ontológica, enquanto posturas interpretativas, sendo a arte um dos horizontes de reflexão em que se responde inevitavelmente à questão do homem e da sua proventualidade historial, essas duas dimensões que mais unidamente se imbrincam.
Todavia, se Heidegger se utiliza da sua própria reflexão sobre a Arte como momento privilegiado da própria des-construção dos pontos nodais do seu pensar ‑ a questão do ser e da diferença ontológica ‑ parece-nos que tal abordagem não perde por isso a sua pertinência. De facto, se a questão da arte, e a obra de arte ela própria, perdem algo da sua autonomia e não são perspectivados como absolutos, na sua postura pura e simples e, por outro lado, patente, a relevância que o filósofo assigna à Arte como momento instaurador, e à obra de arte como lugar de apresentação dos dilemas insuperáveis da dinâmica do Ser, e como in-stância mostrante, quiçá mais do que qualquer outra, do referente enigmático da questão ontológica. Mesmo enquanto momento lateral da reflexão de Heidegger sobre o Ser, e apontando justamente para ele, o texto que aqui comentamos não deixa, por isso, de ser extraordinariamente significativo. Se a Arte perde, inevitavelmente, horizonte hermenêutico próprio, a sua relevância no pensar heideggeriano não é por isso menor, antes relevando a proximidade da questão da origem da arte e do seu carácter enigmático com a fonte originária e indizível do brotar do Ser para a patenteação que se dá, como a própria obra de arte, ao qewrein do homem, na sua postura a um tempo historial e de Dasein. Trata-se, pois, de relevar que enigma é esse que a arte acolhe, que outro não é senão o enigma que é a própria arte ela mesma.
Este ponto fundamental do Posfácio, é imediatamente apresentado no segundo parágrafo de UKw.: sabendo-se, por um lado, que origem ‑ Ursprung ‑ significa “aquilo a partir do qual e através do qual uma coisa é o que é, e como é”, que a “origem de algo é a proveniência da sua essência”, perguntar pela origem da obra de arte significa indagar a “proveniência da sua essência”, ou, por outras palavras, “a pergunta pela origem da obra de arte indaga a sua proveniência essencial”[2].
Por um lado, sabemos também, se partirmos da compreensão comum sobre esta problemática, que o fazer do artista é dado como o ponto a partir do qual surge a obra. Mas, por sua vez, o artista só é o que é na e pela obra, “pois é pela obra que se conhece o artista, quer dizer: a obra é que primeiro faz surgir o artista como mestre da arte”. Neste sentido, “ o artista é a origem da obra” e “a obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro”[3]. No entanto, nenhum dos dois elementos ‑ o artista e a obra ‑ manifesta uma auto-suficiência ontológica que lhes permita ser por si mesmos enquanto tais. Situados no cerne deste primeiro problema ‑ absolutamente central para a tematização da questão da origem da obra de arte ‑ importa saber o que permite ao artista e à obra serem o que são, uma vez que é explicitamente negada pelo autor a possibilidade do artista e da obra serem por si mesmos o que são, isto é, constituírem-se como o seu próprio sustentáculo ou fundamento.
Numa primeira tentativa de fuga ao impasse criado ‑ tão comum entre outros ‑ Heidegger faz intervir o terceiro elemento da “trindade” por si próprio estabelecida, a arte, sustentáculo do ser obra e do ser artista: “Artista e obra são, em si mesmos e na sua relação recíproca, graças a um terceiro, que é o primeiro, a saber, graças àquilo a que o artista e a obra de arte vão buscar o seu nome, graças à arte”[4]. A Arte é, a um tempo, a origem do artista e da obra, o sustentáculo, o fundamento procurado para doar consistência à obra e ao artista. Aparentemente a ciclicidade triádica revolve-se, uma vez que foi definitivamente abandonado o princípio aristotélico do terceiro excluído, ao postular-se a existência de um terceiro elemento, a Arte, que permite ao artista ser o que ele é e faz emergir a obra como obra de arte e não como simples obra.
Nesta perspectiva talvez não seja abusivo considerarmos que a Arte se apresenta como algo que existe por si mesma, independentemente da existência da obra e do artista, quer dizer, como um elemento originariamente fundante. Esta interpretação não nos permite, contudo, conceber a Arte como um produto imagético, como o resultado da actividade criadora de um génio, mas, ao invés, como algo que existe “aí”, no Mundo, a partir do qual a obra e o artista se tornam efectivamente o que são. Se considerarmos esta tese legitimável, como poderemos, então, conciliá-la com aquela que considera a arte como uma mera palavra, que não corresponde a nada de real?
Numa tentativa de resposta a este segundo problema ‑ imediatamente decorrente do impasse a que se chegou a partir do primeiro ‑ constata-se que a Arte não é mais do que uma “ideia de conjunto”, na qual juntamos o que nela podemos considerar de real, a saber, as obras e os artistas[5]. Perante a instalação reiterada da aporia, emerge o terceiro problema que esta análise apresenta: como considerar reais as obras e os artistas, uma vez que é destruída a concepção da arte enquanto algo de real? Interpretado na sua linearidade, este problema afigura-se efectivamente incompreensível e sem resposta adequada.
Não obstante o impasse a que chegámos, novamente, a exegese heideggeriana indica-nos que só poderemos ter obras e artistas na medida em que a arte existe como sua origem. Falar de obras de arte e de artistas sem postularmos a Arte como existente seria, do ponto de vista lógico e ontológico, absurdamente inconcebível. Quaisquer que sejam as questões ou as respostas sobre a eventual ou aparente vacuidade do percurso traçado pelo pensar heideggeriano, a questão da Der Ursprung des Kunstwerkes é sempre e inevitavelmente a questão da essência da arte que ronda de um modo incisivo a “Questão do Ser”.
A questão da origem da obra de arte transmuta-se, definitivamente, para a interrogação pela essência da Arte. O discernimento dessa essência produz, contudo, a mesma ciclicidade do pensamento anterior, uma vez que só as obras de arte reais nos podem dar a conhecer o que é a Arte. Porém, urge que saibamos o que é a Arte em si mesma, de molde a podermos reconhecer ou verificar se tal ou tal obra pode ser verdadeira e autenticamente considerada como Arte, no seu sentido mais originário ; para que possamos distinguir, com alguma segurança, o que pertence e não pertence ao domínio estrito da Arte, se é que realmente esse domínio existe de forma autonomamente diferenciada.
Esta auscultação conduz-nos, irremediavelmente, a um terceiro impasse: o que é a arte só o poderemos saber na medida em que contemplarmos comparativamente as diferentes obras; e o que é a obra só o reconheceremos pela compreensão da essência da arte, a qual, por sua vez, deve ser procurada na obra real, a partir da interrogação pelo seu ser[6]. Longe de procurar evitar o círculo, Heidegger instala-se nele de um modo quase definitivo. O movimento cíclico da obra à arte e desta à obra, apresenta-se como a marcha efectuada por um “caminho que não conduz a parte nenhuma”: O que devemos, então, entender por obra de arte? Será que continua a ter sentido perguntar o que é a arte, ou qual é a sua origem?.
O próprio Heidegger, numa espécie de um jogo retórico a que conduz a sua reflexão, não pode deixar de perguntar: “Mas pode alguma vez a arte ser uma origem? Onde e como é que há arte?” Ou ainda “Porventura há obras e artistas apenas na medida em que há arte e mais precisamente enquanto sua origem?”[7]. A problemática da Arte e da sua origem permanece um enigma, apesar das tentativas de elucidação efectuadas pelo filósofo através do enredado e enigmático percurso do seu pensar que, conscientemente, denuncia tal facto: por um lado, porque transporta a questão da origem da arte para a questão da essência da Arte que, como haviamos referido, por sua vez, não é senão a questão da origem da essência da obra de arte, uma vez que, em última instância, “a arte encontra-se na obra de arte”. Por outro, porque a questão permanece em aberto até ao terminus da conferência, bem como em outros textos onde o autor diz responder a todas as questões pendentes acerca da arte[8], embora a posição explicitamente apresentada no início do Posfácio não seja, propriamente paradoxal com esta tese, mas substancialmente dissemelhante: ”As considerações precedentes concernem ao enigma da arte (das Rätsel der Kunst), o enigma que a arte é em si mesma. Longe de nós a pretensão de resolver tal enigma. A tarefa consiste em ver o enigma (Zur Aufgabe steht, das Rätsel zu sehen)”[9].
Esse enigma que é a Arte permanece inextricavelmente. E não faz parte das intenções mais prementes de Heidegger querer resolvê‑lo. Dirige-nos, antes de mais, um convite essencial: orientar, a difícil arte de olhar para além do que se vê, aí onde o invisível se guarda, aí onde o latente e o in-habitual se escondem por detrás das aparências das coisas; conduzir a subtil arte de escutar na direcção do apelo daquilo que em silêncio nos fala e que radicalmente se diz, se des-vela ao mesmo tempo que se oculta na e pela obra de Arte, quer dizer, o Ser.
Perguntando ainda e sempre pela dádiva misteriosa do Ser e da verdade, Heidegger visita-a através da meditação da natureza da obra de arte. A experiência profunda da obra de arte regula, primordialmente, assim como esconde a verdade daquilo que é, de tal modo que a possamos ver. A verdade é artística e a arte é poética, já o afirmámos, na sua essência fundadora que é, a um tempo, ontológica e historial.
O espírito de Heidegger‑ sempre disposto a voltar a atrás, a re-tornar ao início, a re‑gressar ao mais estranho, ao mais incerto, ao maravilhoso momento inicial de onde tudo surgiu sem mácula ‑ percorre um caminho em retrocesso no intuito de realizar, à semelhança de Kant, uma nova “revolução coperniciana” ao nível do pensar, que se traduz na busca desse instante primordial da emergência do processo de manifestação do Ser a-colhido e re-colhido no Mundo humano, desse instante onde se deu, pela primeira vez, a re-união do Ser e do Ser-aí (Da-sein) como vínculo ou constelação ontológica do Ser-Homem.
Trata-se de fazer emergir por via desta re-cuperação ou re-cordação da origem, a “Questão do Ser”. “Die Seinsfrage” é, inevitavelmente, o ponto fundamental desta anamnese que a Arte autenticamente trás à luz. Re-cordar a origem consiste na reiteração pura da História pela via pensante da anamnese, no intuito de reencontrar o ponto nevrálgico de união entre o Ser e o Homem, o princípio e o fim da nossa existência historial. Eis o “milagre da Arte” e da criação artística que, pertencendo ao domínio do in-habitual, trás sempre “algo mais”, “isso” que ainda repousa latentemente na Origem e que urge mostrar, tornar visível aos olhares menos atentos e aos ouvidos mais distraídos. É segundo esta perspectiva que podemos compreender que “A criação artística autêntica é ela própria a epifania do mundo por ele iluminado e por ele guardada”[10].
Encontramos aqui a grande novidade de Ukw: a “revelação de um outro modo de manifestação desse mesmo aspecto jânico da essência humana: mais simples e mais habilmente que no projecto hermenêutico do entender, a demiurgia humana traduzida em criação artística revela de modo directo as duas caras de Janus do Dasein, a sua presença finita e situada e aquilo que, dando-se desse modo, é algo mais que tal pertença, deixando transparecer um ‘aí’ mais amplo e de contornos indefiníveis. A obra de arte, sendo ‘feito’ humano, não é um mero produto do homem, pois excede, pois excede como ele próprio o meramente humano: esse ‘aí’ em que acontece não é apenas lugar de Geworfenheit, circunstância de um jazer ou estar delimitados, mas também e sobretudo, sítio de implementação e Entworfenheit, omphalos ubíquo e constante do dar-se ou projectar-se puridimensional do ser, numa linguagem poética muito mais próxima da origem que a fala balbuciante em que se manifesta o pensar”[11].
Pensar na origem , pensar na Arte como epifania de um momento originário significa erguer a “Grande Arte“ou a “Arte Maior”, quer dizer, na Arte capaz de produzir Ser, a Arte cuja produção é captada no âmago da figura humana, mas nunca linearmente. A posição heideggeriana sobre este ponto essencial da relação entre Arte e Origem é, de certo modo ambígua, apresenta dois rostos igualmente originários e absolutamente essenciais: um, mostra-se como desenho definido, de contornos claros; o outro, encontra-se oculto, invisível, num estado de latência essencial, por detrás do primeiro. É tão invisível como a Lua nova para lá do seu contorno.
Parece-nos mais ou menos obvio que, no primeiro caso, defrontamo-nos com a feitura , com o obrar e com os conteúdos propriamente “humanos” de toda a obra de Arte, não obstante o lugar do “humano” na obra não ser exactamente dado como uma presencialidade directa e imediata do artista enquanto criador e autor da obra criada. No segundo, trata-se do irromper como tal, indicando a Origem de tudo aquilo que é como é, distinguindo-se, por seu intermédio, o ser do não ser. Ambas as faces estão manifestamente presentes na obra de arte, re-unidas numa conjugação essencial: o Mundo.
O Mundo emerge na imagem artística que originariamente o traz à luz, ao mesmo tempo que o guarda no mais sereno repouso do instante primordial em que aparece, deixando, no entanto, em suspenso na figura ou imagem artística que o dá a ser o momento ontológico da manifestação ou pura dádiva do ser.
O Mundo iluminado na e pela obra é, desde o início, o topoz essencial a partir do qual a obra se projecta como texto, como leitura interpretativa do momento histórico inaugural que em si mesma conserva e apresenta. A Arte é, ao mesmo tempo, “epifania e custódia do mundo em que está ‘a priori’ projectada, é origem, solo de vigília do aí em que necessariamente acontece e ao qual de facto se vincula”[12].
Só à luz desta fundamentação nos é possível compreender que por detrás da carapaça de um ente concreto e concretamente determinado, como o Parténon, possamos reconhecer, em primeira mão:
a) o perfil autêntico do mundo grego nele guardado e iluminado;
b) a manifestação de uma reunião específica que só esta “Arte Maior” pode tornar visível: a união do humano e do divino, do mundo e da terra, do des-coberto e do en-coberto, a plena manifestação da “Quadratura” ou “Quadrado Ontológico” que Heidegger mostra pela utilização do termo Geviert, apresentando-o, na obra, como o ponto cardeal da re-união do terrestre-celeste com o mortal-divino[13].

Notas:
[1] Rainer Maria Rilke, Frutos e Apontamentos, pp. 216-217.
[2] Martin Heidegger, UKw, in Holzwege, p. 1.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem.
[5] Martin Heidegger, op. cit., p. 14.
[6] Martin Heidegger, op. cit., p. 18.
[7] Idem, pp. 1 - 2
[8] Referimo-nos, especificamente, a um pequeno apontamento de Heidegger intitulada Über die Sixtina, cujo conteúdo nos ajuda não a solucionar mas pelo menos a resolver alguns dos problemas essenciais colocados em UKw sobre a questão do enigma da arte que não é senão o problema da sua origem.
[9] Martin Heidegger, “Nachwort”, in op. cit., p. 66.
[10] Martin Heidegger, “Das Kunstgebilde echter Art ist selbst die Epiphanie der von ihm gelichteten und in ihm gewahrten Welt”, Zu einem Vers von Mörike. Ein Breifwechsel mit M. Heidegger von Emil Staiger, 1951, G.A., 13, p.106.
[11] Irene Borges Duarte, “Heidegger: a arte como epifania”, in op. cit., pp. 65 - 66.
[12] Idem, p. 66.
[13] O termo Geviert é de difícil traduzibilidade. Em sentido comum, e literalmente, o termo significa “quadrado”, “quadratura”, “quarteirão” ou “quadratim”. Provindo do contexto agrário, como é habitual em Heidegger, Geviert significa “canteiro”, espaço para cultivo limitadoi por quatro lados, pelo que, de forma geral, traduz a ideia de conjunto e encontro de quatro. Ora, este quatro correspondem às “quatro regiões do mundo” ou as quatro regiões do ser, àquilo a que o último Heidegger, parafraseando Hölderlin, designa como o mortal, o divino, o terreno e o celestial. Imagine-se o ponto de intersecção de duas linhas cruzadas sobre a palavra Ser, em que as duas primeiras e as duas últimas se unem. Esta intersecção traduz graficamente a essencialidade do conceito de Geviert. Segundo esta imgem talvez pudesse traduzir por “quadrado ontológico” ‑ ou como sugere Irene Borges Duarte, como “cruzamento” ou “cruzeiro ontológico” ‑, cujos vertíces superiores são o celestial e o divino e os inferiores o mortal e o terrestre.

Projecto de Dissertação de Mestrado, Parte I


Porquê Heidegger Hoje?
Alguns Pontos Não Finais..

I - Apresentação

“Dando-se num mundo necessariamente humano, pertencendo a esse mundo, a Arte não é, porém, um acontecimento propriamente humano, não é mera manifestação ou produto de um sujeito criativo singular (génio) ou colectivo (sociedade, cultura), mas sim erupção de uma verdade e um ser mais originários e profundos que embora, sem dúvida, se dêem no homem e através dele, não se confinam a este, antes o envolvem e abrem a essa dimensão sua não definida, não limitada, não entificada, não determinada nem determinável, a que Heidegger chama normalmente ser. A questão da Arte, questão da verdade, é, pois, uma das formas de colocar a questão do ser, que constitui o tema melódico do pensar heideggeriano em qualquer das fases em que se costuma dividir o seu itinerário filosófico”[1]
Enunciar as teses centrais a que nos conduz o Posfácio de UKw, exemplarmente expostas no excerto supra citado, bem como as questões que delas derivam, directa ou indirectamente, é o único objectivo desta primeira parte. O desenvolvimento das teses apontadas e das questões colocadas será objecto do corpo central deste trabalho, constituido pelas divisões temáticas subsequentes.

B ‑ Teses

¨ I ‑ A des-construção da estética metafísica ou da concepção de arte como “experiência‑vivida” (Erlebnis)

1. A Estética enquanto reflexão sobre a arte e os artistas Þ 1ª des-construção;
2. A obra de arte como objecto da “apreensão sensível” (aisqhsiz) Þ 2ª des‑construção;
3. A obra de arte enquanto “experiência-vivida” (Erlebnis) Þ 3ª des-construção;
4. A “vivência” antropológica como critério de determinação da essência da arte Þ 4ª des‑construção;
5. A “vivência” como categoria determinante da criação e da interpretação da arte Þ 5ª des‑construção;
6. A generalização e absolutização da Erlebnis enquanto categoria estético-artística fundamental Þ 6ª des-construção;
7. A Erlebnis como elemento responsável pela morte da “grobe Kunst” Þ 7ª des‑construção;
8. A morte da Arte e as obras de arte imortais Þ 8ª des-construção;
9. A insuficiência do conceito metafísico de Arte para a explicação da essência da Arte Þ 9ª des-construção;

¨ II ‑ O projecto heideggeriano para além das des-contruções da estética metafísica: do estético ao artístico e o primado do ontológico

1. A origem (Ursprung) como projecto de iluminação do “carácter-de-obra” da obra;
2. A unidade radical entre origem, obra e verdade: da origem à verdade e da verdade à obra;
3. A verdade como categoria determinante da essência da Arte;
4. A Arte como des-ocultação da verdade do ser: a ontologicidade da verdade e da obra de arte;
5. Da Arte como pensamento do ser ao discurso ontológico sobre obra de arte;
6. A absolutização ontológica do artístico e do estético;
7. O dar-se do belo pela verdade: a pertença do belo ao “auto-conhecimento da verdade”;
8. Da dimensão formal do belo à ontologização do belo: o belo como eidoz;
9. A história da essência da Arte ocidental como história da transformação da essência da verdade;
10. Heidegger e Hegel: a temporalidade e a historialidade da Arte ‑ função historial e função ontológica da Arte;

C ‑ Questões

1. Porquê a recusa de uma fundamentação metafísica da Arte?
2. Porquê a recusa das estéticas da Erlebnis?
3. Qual a relação entre o projecto da ontologia fundamental de Heidegger e a sua
conceptualização sobre a Arte?
4. Como compreender a relação entre obra, artista e criação numa concepção estético‑ontológica que visiona a Arte como mostração da verdade do Ser?
5. A análise da obra de Arte e da sua origem, em Heidegger, seguirá um percurso uniforme?
6. Será indiferente analisarmos a problemática da Arte no segundo e no último Heidegger?
7. O pensar heideggeriano sobre a Arte em UKw, é exactamente o mesmo que emerge em 23 de Setembro de 1966 na entrevista concedida à Revista alemã Der Spiegel, seis anos depois de ter sido escrito o Suplemento à conferência citada?
8. Haverá ou não uma mutação por parte do autor no que concerne à compreensão do fenómeno artístico, em função do modo como a Arte se vai relacionando com o homem, com o mundo e com o tipo de cultura e civilização a que se encontra adstrita?
9. Será que a Arte é, invariavelmente, para Heidegger, uma forma essencial de verdade?
10. Como compreender a defesa da tese que afirma incondicional e priviligiadamente a existência da denominada “grobe Kunst”?
11. Haverá uma Arte “maior” e uma Arte “menor”?
12. Qual o critério que permite a Heidegger distinguir a Arte da Não-Arte?
13. O que permite a Heidegger fazer esta distinção e qual a legitimidade do seu fundamento?
14. Será o pensar heideggeriano suficientemente esclarecedor para a interpretação e compreensão plena e autêntica da Arte contemporânea?
15. Face à tão enraizada concepção especulativa da Arte, constituirá o posicionamento artístico heideggeriano uma ruptura, uma inovação?

O Posfácio da conferência DKw., como veremos a seguir, coloca-nos precisamente algumas das questões mais essenciais no que concerne à filosofia da arte exposta pelo autor a partir de 1935 -36, altura em que sentimos o desviar do seu olhar directo sobre o Ser para as suas formas de mostração essencial, entre as quais se encontra.
É incisivamente a questão da Arte em Heidegger ‑ perpassam o espírito e a fundamentação subjacente à conferência em estudo, envolvida pela ciclicidade de um pensar que rodopia sempre em torno do seu próprio eixo, culminando, amiúde, na aporia aquando da tentativa de explicitação da natureza do relacionamento existente entre os elementos centrais da mais eminente “trindade“ heideggeriana ‑ a arte, a obra e o artista ‑ ou quando o filósofo envereda pela apresentação de um conjunto de hipóteses de esclarecimento da tese que tende para a determinação da essência da Arte e da sua origem: o “pôr-em-obra-da-verdade”, a partir da qual a Verdade emerge como a categoria fundamental de todo o fenómeno artístico autêntico, onde quer que ele se posicione e seja qual for a forma em que a Arte se apresente, não obstante a Poesia, a Pintura e a Escultura/Arquitectura se afigurarem como os modos de ser da Arte privilegiados pelo filósofo, no que concerne especificamente a esse des‑velar primordial da verdade do ser na obra. Porque, afinal a verdade, é em si mesma, artística e a arte é, por natureza, poética.
Mas, no entanto, nem toda a poesia, nem toda a pintura ou escultura é genericamente considerada como pertencente ao universo da “grobe Kunst”, o único modo de ser legítimo a partir do qual vale a pena falar da Arte. O circulo é fechado e enformado por um elitismo que Heidegger revela sem reservas: do lado da Poesia, para além de Stephan George e de Trakl ou René Char, os poetas eleitos são Hölderlin e Rilke, não esquecendo Sófocles, tragediógrafo pertencente ao momento inaugural da fase grega da poesia pensante. Van Gogh, Cézanne, Paul Klee e Braque, são os pintores escolhidos. Também na Escultura/Arquitectura devemos dar o mesmo “passo-atrás” e captar o re-colhimento originário do ser na sua verdade que o Templo Grego em si mesmo instaura.
É este posicionamento crítico e des-construtivo que conduz Heidegger a convocar Hegel, pensador metafísico e revelador legitimamente autorizado para denunciar as insuficientes e ilusórias teorizações estéticas legadas pelo pensamento ocidental, cujas categorias lógico-epistemológicas conduziram, a partir de si mesmas, à agonia da “grobe Kunst”.
Ora, toda a problemática a desenvolver gira precisamente em derredor da questão central exposta por Heidegger no Posfácio da conferência supra citada: A morte da ”Grande Arte”, em estreita articulação com a problemática da origem da obra de arte, nunca abandonada pelo filósofo, em nenhuma das fases do seu pensar. As questões essenciais do Posfácio conduzem-nos a pensar a des-construção da estética metafísica e a morte da “Grande Arte” em torno do veredicto de Hegel.

[1] Irene Borges Duarte, “Heidegger: a arte como epifania”, in Filosofia, Vol. II, Nº 1/2, Outono ‘89, p. 63.

Projecto de Dissertação de Mestrado: Objectivos e Estrutura


I - Objectivos

1 ‑ Circunscritos neste domínio tão premente da reflexão actual, pretendemos mostrar em que medida a Arte emerge como a manifestação primordial da Natureza, da Terra-Mãe, que a todo o momento nos lança um grito de alerta, que se doa ao profundo sentir e ao perspicaz olhar do artista que revela o seu canto originário. Entre a humanidade desatenta e mergulhada na trivialidade quotidiana do existir, o artista incarna o espírito sempre renovado dessa espécie in-habitual de homens que tem o privilégio de saber escutar e responder, em primeira mão, ao apelo desse fundo abissal, a um tempo, velado e des-velado, qual lugar de união entre o humano e o divino, entre o visível e o invisível, qual lugar da mostração da dor e da consolação, onde co-habitam o perigo e a salvação, que ainda parece ser possível, apesar de todos os desastres ecológicos que nas últimas décadas têm assombrado a Mãe‑Natureza de um modo verdadeiramente irreflectido e impiedoso. No entanto a pureza da representação do pintor e do canto do poeta, des-velam-na de um modo autenticamente originário, salvaguardam e perservam a sua virgindade mesmo apesar do desvirtuamento a que está sujeita a cada instante.
2 ‑ Importa, pois, reflectir, num primeiro momento, sobre esta fase inicial em que a reflexão heideggeriana se dirige para o fenómeno artístico, pensado a partir da essência da Arte, ou melhor, a partir da sua proveniência essencial que demanda pela origem da obra de arte, ao mesmo tempo que faz ecoar, em primeiro plano, o veredicto exposto por Hegel na “Introdução” à Estética em estreita relação com o anúncio nietzschiano da morte da “grobe Kunst” e do nascimento da estética moderna, concebida enquanto ciência que delimita não só as categorias que determinam o que é e não é Arte, bem como os modos da sua criação e apreciação, em derredor de um único ponto: a “experiência‑vivida” (Erlebnis) ou “vivência” em correlação com o postulado de uma metafísica do artista fundada no mais puro subjectivismo. Heidegger insurge-se contra essa ciência que faz gravitar a Arte e o Belo em torno do sujeito, e não em torno da obra e da sua origem, como nos é explicitamente mostrado em UKw, onde o filósofo manifesta um posicionamento sobre a arte que constitui, em si mesmo, uma ruptura radical com a Estética em geral.
3 ‑ Num segundo momento, interessa-nos pensar a Arte a partir do modo como esta se apresenta ao autor na fase final do seu pensamento, revisitada e retocada em função de um outro modo de perspectivação da essência da técnica moderna, que não é mais tecnh ‑ esse modo de pro-dução (poihsiz) inicial que caracteriza a originariedade do trabalho humano ‑ nem tão pouco um modo de revelação ou des-velamento (alhqeia) da jusiz, da Terra-Mãe enquanto fundação e doação original, mas Ge-stell, “com-posição”, “mascaramento”, “pro-vocação”, bem como a Arte enquanto manifestação do Ser como Geviert, (Quadratura), quer dizer, como re-presentação das quatro regiões do mundo: o celeste-terrestre, o humano-divino.
4 ‑ Pensaremos, em qualquer dos casos e sempre, a questão da Arte em função da questão da sua origem, no intuito de compreendermos esse “passo atrás” que nos permite rememorar e renomear o acontecimento primordial de todas as coisas; chegar ao início da aventura primeira do homem com o Ser, ao começo originário do pensar do Ser pela palavra essencial que nos traduz o destino historial do Ser e da essência do homem, à “Grande Arte” como o caminho condutor do nosso estar-aí projectante num Mundo e numa Terra que temos por obrigação conservar e salvaguardar.

II ‑ Estrutura

1. Desenvolveremos a temática em estudo envoltos numa ambiência predominantemente ecológica da salvaguarda da Terra ex-posta e preservada no e pelo canto dos poetas, nas cores e nos traços dos pintores da “grobe Kunst”, partindo, por um lado, do Posfácio de Ukw ‑ texto fundamental para a compreensão do pensar onto-artístico heideggeriano ‑ que é, a um tempo, o ponto de partida e de chegada das nossas análises.
Escrito, sob a forma de uma adenda, o Posfácio tende a re-colocar, recorrendo ao veredicto de Hegel, os pontos fundamentais que sobre a Arte importa pensar; e, por outro, do Suplemento, escrito por Heidegger vinte anos mais tarde, e cujo conteúdo envolve o esclarecimento de um conjunto de questões terminológico-conceptuais de extrema importância para o esclarecimento das teses/questões enunciadas pelo pensador da Terra quer ao longo do Posfácio quer ao longo de UKw.
2. No intuito de tornarmos mais clara a nossa exposição, dividimos o presente trabalho em três partes. A primeira parte, intitulada “Alguns pontos não finais”, destina-se apenas a apresentar genericamente o conjunto de teses e de questões que se nos afiguraram essências para a compreensão do posicionamento heideggeriano, as quais serão respectivamente desenvolvidas e esclarecidas ao longo dos momentos subsequentes deste trabalho, não obstante todas as limitações desta investigação preliminar.
Na segunda parte, debruçar-nos-emos especificamente sobre as duas questões essenciais do Posfácio ‑ a Arte como enigma e a questão da origem/a estética enquanto reflexão sobre a arte e os artistas ‑ seguindo de perto o já referido veredicto de Hegel no que concerne, particularmente, às causas da morte da Arte pela via heideggeriana da des-construção da estética.
Debateremos questões essenciais como o acontecimento da verdade na Arte e pela Arte, a temporalidade/historialidade da Arte, a função historial e ontológica da Arte, tomando como exemplos mais significativos, ao nível da arquitectura, o Templo Grego e, ao nível da pintura, duas obras de Van Gogh, “Um par de Sapatos” e “Meio Dia: Sesta”, enquanto ilustrações privilegiadas do modo de instauração da verdade, onde o ontológico e o histórico se fundem, ao mesmo tempo que se “incompatibilizam”, onde assistimos à ilustração directa das teses centrais sobre a obra de arte: “O pôr-em-obra da Verdade”/o “‘Ser-obra’ como combate entre Mundo e Terra”, a partir das quais fundamentaremos o nosso visionamento ecológico sobre a Arte.
Referir-nos-emos, ainda, aos modos de ser da verdade e ao inseparável jogo de re-união dos opostos, à relação entre a verdade, o belo e a obra, assim como à natureza da relação existente entre verdade e Ge-stell, no intuito de compreendermos o papel habitante da arte na era da técnica moderna.
3. O presente trabalho comporta, ainda, um Apêndice, onde integrámos reproduções ilustrativas dessa “Arte Maior” consagrada pelo nosso filósofo. Escolhemos algumas pinturas de Van Gogh, Paul Klee e Cézanne, pintores eleitos por Heidegger, cujos temas se relacionam directamente com as teses centrais defendidas por autor acerca da Arte. Nelas se ilustra a instalação de um Mundo e o erigir da Terra; são testemunhos vivos da verdade dos entes nelas a-presentadas; são alusões denotativas da época historial que as viu nascer. As palavras dos seus autores são, aqui, a expressão do que é a Arte, bem como da mundivisão específica que, na sua verdade, o artista pôs em obra: “Há muitas pessoas especialmente entre os nossos camaradas (pintores), que imaginam que as palavras nada são, mas pelo contrário, é tão interessante e tão difícil dizer bem uma coisa quanto pintá-la, não é? Há a arte das linhas e das cores, mas a arte das palavras também existe e nunca será menos importante”[1], escreve Van Gogh.
Depois de toda a teorização acerca da Arte e da obra de arte, a que Heidegger nos conduziu, quisemos deixar falar os artistas recorrendo à força de expressão das suas próprias palavras e das suas obras. Como Van Gogh alimentamos “uma firme fé na arte, uma firme confiança em ela ser uma poderosa corrente que conduz o homem ao seu destino”[2]
Como Klee, sabemos que “ver não é suficiente, temos de escutar a pintura” (...), que “a arte não reproduz o visível, torna visível”, e que “o visível é apenas um exemplo isolado e que outras verdades existem, latentes e cada vez mais numerosas”[3]
Talvez possamos corroborar, ainda, a tese de Cézanne segundo a qual “uma forte sensação da natureza ... é a base essencial de qualquer conceito de arte”, um pintor que “abre à arte a inesperada porta que nos conduz à pintura pela pintura”[4], à Arte pela Arte, como Heidegger acrescentaria.

Notas:
[1] Van Gogh, “Carta 134 ‑ 1888”, in Orlindo Pereira, Vincent Van Gogh. Palavra e Imagem, p. 7.
[2] Van Gogh, in William Feaver, Van Gogh, p. 7.
[3] Paul Klee, in Constance Naubert-Riser, Klee, pp. 21, 25-26.
[4] Cézanne, in Constance Naubert-Riser, Cézanne, pp. 40 e 34.

Projecto de Dissertação de Mestrado: Introdução

I ‑ Apresentação do Tema: Equação do Problema e Percurso de Investigação

Entender Heidegger é mudar completamente
o olhar sobre o que nos rodeia, sobre nós
mesmos, e aprender a pensar diferente.”
[1]
Fernando Belo


1. Um olhar atento sobre o mundo em que vivemos ‑ que a todo o momento nos surpreende com as mais recentes descobertas científico-tecnológicas, em prol “disso” a que resolvemos chamar progresso, palavra mágica que tem enfeitiçado mesmo o mais céptico dos pensadores ‑ sobre esta humanidade que perdeu de um modo verdadeiramente descontrolado a consciência sobre si mesma e sobre as suas limitações mais evidentes, faz-nos ver que a catástrofe desde há muito anunciada já ocorreu: a dominação tecnológica da nossa civilização.
Talvez tenha sido esta a experiência vivenciada por Heidegger (1889 ‑ 1976) que encontramos exposta nos seus escritos do pós Guerra, nos quais se espelham, de um modo vivo e enriquecedor, as preocupações “ecologistas” de um homem que, seguindo de perto o anunciado por Sófocles no segundo Coro de Antígona, pensou a Terra, qual espaço originariamente privilegiado da nossa habitação, qual astro errante que hoje se encontra cada vez mais à beira da sua própria degeneração total. É incisivamente no seio desta problemática, que constitui o cerne do pensamento mais fecundo do segundo Heidegger, que vemos emergir com particular acuidade, entre 1939 ‑ 1945, a sua/nossa grande questão: com que arte de poeta poderemos habitar nesta Terra assim dominada, nesta Terra onde a salvaguarda da autenticidade do Ser e do Homem parece não ser mais possível?
2. O grande esforço de Heidegger, que afinal continua a ser o nosso, não se circunscreve apenas à tentativa de delimitação do espaço de dominação da ciência e da técnica modernas, mas remonta ao espaço da filosofia aberta por Platão, amplamente reformulado a uma nova luz, no intuito de compreender o sentido e a legitimidade do domínio hiperbólico e descontrolado de manipulação que a ciência/técnica moderna assumiu enquanto Pro-vocação da Terra-Mãe, contrariamente ao sentido originário da tecnh grega que ocupava o seu lugar central no complexo de significações e percepções irradiadas pela jusiz), concebida como o ingressar pleno no Ser radiante.
É decisivamente esta temática que nos interessa investigar com a profundidade possível. Importa, pois, compreender esse trágico processo da falsa técnica que não é jamais poihsiz, quer dizer, pro-dução (Her-vor-bringen), entendida como o modo privilegiado de fazer abrir a floração e de promover o desabrochar (Aufgehen) do ente na sua nudez primordial, como a Arte, ou melhor, a “Grande Arte” faz emergir, contra a “composição” ou “mascaramento” (Ge-stell) do Ser que nos tornou desamparados do Mundo e da Terra , que somente a Arte parece poder re-únir e re-colher em si mesma, numa salvaguarda autêntica que permite a cada ente humano juntar, em cada acto de criação artística, o Ser e a Verdade do Mundo e do Homem.
3. É-nos dito pelo consagrado Hölderlin, “o poeta do poeta”, múltiplas vezes reiterado por Heidegger: “O que perdura, porém, fundam-no os poetas” e “pleno de mérito, contudo de um modo poético habita o homem esta terra”[2]. Ora, é o papel habitante e de fundação inicial que filósofo confere à Arte que nos interessa auscultar, no seio do contexto do seu pensar artístico, onde encontramos uma relação umbilicalmente estabelecida entre Arte, Técnica, Natureza, Verdade e Pro-dução, conceitos entendidos no seu sentido mais originário que remonta à dimensão grega do pensamento autêntico, cuja significação mais veraz emerge de uma análise etimológica dos termos tecnh, jusiz, alhqeia , poihsiz, categorias estéticas em derredor das quais gira toda a problemática heideggeriana sobre a Arte e, mais especificamente, sobre a sua origem.
É no seio de toda esta contextualização que se movem as nossas investigações sobre a Arte, a obra de arte e a sua origem, bem como todas as nossas incursões sobre as categorias estéticas que dominam o posicionamento ontológico sobre a Arte desenvolvido pelo mais íntimo pensador da Terra.
4. É justamente num ciclo de conferências proferidas por Heidegger entre Novembro de 1935 e Novembro‑Dezembro de 1936, sob o título UKw que assistimos, em versões ligeiramente dissemelhantes[3], à teorização específica sobre a problemática da Arte, que é , a um tempo, a do Ser, da Verdade e da Técnica, bem como a da sua proveniência essencial.
UKw é, seguramente, um dos textos centrais do segundo Heidegger no que concerne não apenas à questão da Arte, mas também, e quiçá sobretudo, à “Questão do Ser” ‑ “Seinsfrage” ‑ através dela apresentada, exposta e mostrada, embora não explicitamente enunciada. Na obra de que faz parte integrante, Holzwege, encontramos outras conferências essenciais para a compreensão interna deste quadrado conceptual (Ser ‑ Arte ‑ Verdade ‑ Técnica) entre as quais destacamos Die Zeit des Weltbildes (1938), Wozu Dichter? (1946) e Nietzsches Wort “Gott ist Tot” (1943), cujas teses nos permitem esclarecer o que é escrito nas entrelinhas deste texto de charneira, de entrecruzamento dos múltiplos e aparentes desvios de um pensar que gira sempre em torno de um único ponto, qual fundamento e fundação de tudo o que se pode pensar, dizer ou nomear: O SER.
Não podemos, pois, deixar de pensar em uníssono a questão da Arte, ou se preferirmos, a “Questão do Ser”, sem recorrer a outros escritos essenciais, não reunidos em Holzwege, mas cuja problemática nos dá a conhecer esses outros caminhos do pensar artístico heideggeriano que com este se interconectam de um modo verdadeiramente essencial. Referimo-nos, particularmente, a Die Frage nach der Technik (1953), Einführung in die Metaphysik (1935), Erläuterungen zu Hölderlins Dichtung (1936), Über die Sixtina (1955), Nur noch ein Gott kann uns retten (1966), Unterwegs zur Sprache (1959), Hölderlins Hymnen. “Germanien” und “Der Rhein” (1923), Sein und Zeit (1927) e Vom Wesen der Wahrhreit (1930), entre outros textos naturalmente importantes, mas não tão directamente relacionados com o nosso tema: “A Arte, a Verdade e o Belo: o Dizer da Terra e a Mostração do Mundo”.
5. Em UKw é-nos apresentado, de um modo claro e decisivo, um conjunto de teses que determinam definitivamente a base de toda a concepção heideggeriana sobre a Arte, não obstante toda a circularidade de certas afirmações e inferências que se sucedem ao longo do texto, sob um pano de fundo eminentemente ontológico, o qual perpassa e aglutina todos os domínios onde quer que se posicione o mais fecundo pensamento do autor de Sein und Zeit. O texto move-se, sem o dizer expressamente, sobre o caminho da questão da essência do Ser: por detrás da questão que pergunta pela origem da obra de arte, podemos visionar, sem equívocos, a questão fundamental que percorre obsessivamente a indagação heideggeriana: “die Seinsfrage”.
Chegados ao ponto crucial deste pensar não estético, mas onto-artístico, verificamos em que consiste a grande dissemelhança, ou quiçá novidade/inovação da reflexão heideggeriana sobre a Arte, relativamente às grandes discussões estéticas reinantes ao longo da História da Filosofia, pelo menos nos seus moeentos mais excelsos, em torno das chamadas categorias estéticas fundamentais, como o Belo, o Feio, o Horrendo, o Harmonioso ou o Sublime.
Esta indicação afigura-se-nos essencial. Em Heidegger a Arte, não se reduz a tais categorias, assumindo, ao invés, uma dimensão profundamente mais ampla. A Arte emerge mais ligada à verdade do que à beleza ou a qualquer outra categoria estética, pois o belo é, em si mesmo, inerente ao dar-se da verdade, ou se preferirmos, um modo de exercer-se da verdade enquanto não-encobrimento: a beleza da imagem criada na e pela Obra de Arte abre as dimensões ocultas do destino primordial do Ser na sua íntima vinculação com o Homem. Eis o que fará culminar toda a reflexão desenvolvida na tese que postula a ideia de que a essência da Arte é a epifania do Mundo na beleza, ao deixar desabrochar a verdade desse ente que a obra torna patente numa não-latência essencial, permitindo a sua compreensão originária, numa dimensão histórica e historial espacio‑temporalmente delimitada. Porque afinal a Arte “é história na medida em que funda história” e a “história da essência da arte ocidental corresponde ao percurso mutante da essência da verdade”[4].
6. Torna-se óbvio que a Arte não é mais concebida como um domínio especial da realização cultural, ou como uma das manifestações superiores do Espírito humano, tal como Hegel havia defendido. Ao invés, e ao manifestar o seu profundo enraizamento ontológico, emerge como um dos modos de des-velamento e revelação do Ser, como um meio privilegiado através do qual o Ser se dá a conhecer na sua nudez primordial. Todavia, o que é a Arte é uma das questões à qual o texto jamais responde. Permanecemos sempre na mais perfeita aporia, pois a “Arte surge, antes de mais, como um enigma”[5].Não obstante, e como nos é indicado pelo próprio título desta conferência, pretende-se perscrutar qual a origem da obra de arte, quer dizer, discernir a essência da Arte enquanto tal, pois a “questão da origem da obra de arte coloca aquela da sua proveniência essencial, uma vez que é estabelecido que a origem não é senão o emergir da essência”[6].
7. Não obstante as referências que possamos encontrar nas obras do primeiro Heidegger sobre a Arte, a tematização e a sistematização deste tema começa a surgir no autor, de um modo mais definido, sensivelmente a partir de meados dos anos 30, precisamente na sequência das linhas de investigação traçadas na conferência intitulada Vom Wesen der Wahrheit, com a qual UKw apresenta grandes afinidades estruturais e conceptuais, apesar de nos conduzir muito mais longe no que concerne à delimitação explícita das directrizes essenciais que passam a comandar, desde então, a compreensão heideggeriana sobre a Arte.
A reflexão sobre o “fazer-se-obra da verdade”, uma das teses centrais de UKw, correlaciona‑se directamente não apenas com o desabrochar da verdade tomada em si mesma e por si mesma, desligada de denotações que lhe sejam exteriores, mas com o emergir político de uma verdade conotável com um sistema de valores bem determinados e ainda bem presentes em todos nós: os valores sobrestimados pelo Nacional Socialismo, em cuja mensagem o nosso filósofo acreditou, num primeiro momento, do seu caminho em demanda da Verdade do Ser esquecido pelo pensamento imediatamente anterior.
Assim perspectivada, a questão da Arte não é pois apenas um modo entre outros de colocar a “Questão do Ser”, mas a via de re-colocar a questão da Verdade e a questão da Verdade do Ser, sentida como necessidade imediata após a desilusão e a marginalização sentida e sofrida perante uma ideologia que já não valia a pena ser pensada. Tal como Platão, Heidegger experienciou a aventura siracusiana. Depois dela, rejeitado por gregos e por troianos, dedica-se ao que importa realmente pensar: a essência do fazer humano, a um tempo, revelador e pro-dutor do Ser. Esse fazer humano essencial é um obrar inaugural, um “fazer-obra” linguístico, artístico, numa palavra, poético.
Esta fundamentação não nos permite, porém, defender a tese segundo a qual a reflexão heideggeriana sobre a Arte constitua uma espécie de “fuga à realidade” ou uma atitude meramente “romântica”. Apenas nos indica que “num momento convulsionado e tenso, em que a ciência e a tecnologia, a investigação e a publicidade prestavam o serviço inevitável e eficiente à vontade de poder e esta fazia culminar na unilateralidade totalitária e destrutiva o desleixe ontológico e o ocaso da civilização ocidental, a arte podia aparecer como remanso e abrigo de uma verdade prévia e originária, verdade que excede as fronteiras impostas pela previsão informática e a engenharia social e se manifesta guardiã de uma relação mais autêntica e fiel ao ser silente, sem nome nem conceito, que só na voz humana alcança a sonoridade luminosa da palavra”.[7]

Notas:
[1] Fernando Belo, Heidegger, pensador da Terra, p. 16
[2] Martin Heidegger, in “Hölderlin e a essência da poesia”, in Filosofia, Vol. III, Nº 1/2, Outono ‘89, p. 49
[3] Segundo esclarece o tradutor francês de Holzwege, Wolfgang Brokmeier (Tel/Gallimard), a primeira versão de Der Ursprung des Kunstwerkes, é constituída pelo conteúdo de uma conferência realizada por Heidegger em 13 de Novembro de 1935 para a Kunstwissenschaftliche Gesellschaft de Fribourg-en-Brisgau. Foi reformulada em Janeiro de 1936, a propósito de um convite recebido pelo filósofo dos estudantes da Universidade de Zürich. A versão em estudo integra três conferências proferidas para o Freie Deutsche Hochstift (Francfort-sur-le-Main) respectivamente em 17, 24 Novembro e 4 de Dezembro de 1936. O Posfácio a este texto foi escrito, em grande parte, posteriormente a 1936. O Suplemento foi escrito por Heidegger 1956.
[4] Martin Heidegger, Ukw, in Holzwege, p. 69 - 70.
[5] Martin Heidegger, Ukw, in Holzwege, p.89.
[6] Martin Heidegger, op. cit., p.13.
[7] Irene Borges Duarte, “Heidegger: a arte como epifania”, in Filosofia, Vol. III, Nº 1/2, Outono de 89, p., 68.

Plano de Tese de Doutoramento: Apresentação, Objectivos e Linhas Gerais de Investigação

Projecto de Tese de Doutoramento

Título: «Um Poética da Música em Martin Heideigger: Os Domínios da Poesia e o Canto dos Poetas»»

I – Apresentação do Projecto

§ 1. A obra de arte é, para Heidegger, o ente da existência metafísica que clama de novo resposta ao espanto originário. É neste sentido que o filósofo pode afirmar a sua concepção da Arte como origem, radicando de modo insigne, pelo qual a verdade tem acesso ao manifesto e à história, a essência mesma da Arte. Coetânea desta adveniência da verdade, a Arte tem também, porém não só ela, essa dimensão fundamental segundo a qual é, eminentemente um «mostrante», um Poema (Dichtung). Capacitada para se «jectar» na patenteação, no manifesto, ela é pro-jecto de clareira, despoletadora da própria abertura em que o ente se dá na sua verdade.
1.1. Nisso de fazer vir ao aberto o ente enquanto ente des-velado, a Arte é Poesia, um fazer mostrante que dilucida o modo como o ser possibilita um «jectar» para o manifesto, de acordo com o qual o aberto da verdade se destina a ter estância no ente. Porquanto, a um tempo, acolhe a dádiva da verdade posta em ente e explicita o salto enigmático do ser ao ente, a obra está no topoz da diferença ontológica e da fundação de tudo o que é. Finalmente, na medida em que é concomitante ao originário, e enquanto advento da verdade do Ser que faz apelo para ele, a obra de arte ganha o seu lugar entre os entes mais «mostrantes» da existência.

§ 2. Porém, e a Arte é Poesia e, nisso, mostra, a quem o faz? Qual o ente que se demanda pelo porquê de tudo assim ser, e acolhe essa mostração como detendo um sentido? Heidegger diz-nos: «A essência da arte, é o Poema. A essência do Poema, é a instauração da verdade. Esta instauração, nós tomamo-la aqui num triplo sentido: como dom, como fundação e como inicial»[1].
2.1. A própria assumpção da Arte como Poesia, como «fazer mostrante», cedo mostra a necessidade de acolher, no questionamento heideggeriano sobre a Arte, a temática antropológica, e a condução da abordagem ontológica a essoutra, não menos fundamental, da postura metafísica do Da-sein e da inquirição deste sobre o Sentido do Ser, qual ponto nodal que marca e perpassa este pensar assim manifesto.
2.2. Numa tematização da Arte a partir dos conceitos de «instauração» e «Poesia» a noção de ‘criação-adveniência’ da obra, relevada tão somente na sua dimensão ontológica é manifestamente insuficiente. Há, pois, que relevar outra interpretação que sobreleve a figura do homem e o seu próprio estar metafísico: «No entanto, toda a instauração não é real senão na salvaguarda. Assim, a cada modo de instauração, corresponde um modo de salvaguardar»[2].
2.3. O que iremos desenvolver, sobre a relevância do homem na concepção heideggeriana de Arte e, centralmente, de Poesia, vai, por assim dizer, interseccionar o pano de fundo de uma perspectivação ontológica, havendo que representar nesse espaço comum dos dois círculos interseccionados, respectivamente, as posturas ontológica e metafísica, que, afinal, Heidegger nunca abandona, mesmo nesses momentos inaugurais de des‑construção do pensamento ocidental. Apenas desse modo se torna possível compreender a Arte como instauração na sua tríplice dimensão de dom, fundação e inicial.

§ 3. Se, por um lado, temos que é iniludível, para o filósofo, o facto de que o homem, enquanto artista, não explica a obra na sua radicalidade, porquanto a iniciativa do «fazer‑obra» pertence à verdade, temos, por outro lado, que a própria assumpção desta última como des-velamento só se torna compreensível numa postura em que há Da-sein, esse ente para quem a verdade faz sentido.
3.1. Há, assim, uma concepção inicial que deve ser, dir-se-ia, superada, a saber, a que coloca como categoria mais elevada de compreensão da Arte, a autonomia da obra em relação ao próprio horizonte do humano, ou, como diz Heidegger: «Não é o N. N. fecit que quer ser trazido ao conhecimento de todos; é o simples factum est que quer ser mantido no aberto; isto: que aqui adveio uma eclosão do ente, e que ela advém ainda, precisamente enquanto que este ser-advindo; isto: que uma tal obra é, de preferência a não ser. Este choque: que a obra seja uma obra, e a incessância da sua percussão dão à obra a constância do seu repouso em si mesma. É justamente aí onde o artista, o processo e as circunstâncias da génese da obra permanecem desconhecidas, que este choque, que este quod do ser-criado ressalta o mais puramente da obra»[3].

§ 4. Se na origem, o humano se desvanece, a própria instauração da obra no aberto não pode separar-se desse ente que, perante a sua instância, sente o ‘choque’ e a ‘percussão’ que dela emana. Instauração no seio do aberto e relevância da questão ontológica, sem dúvida . Porém, se ser obra é ser um ente mostrante, a relevância da sua dimensão poética só se torna possível se, aduzido ao momento instaurador, se coloca esse outro em que o Da-sein, enquanto ente que mais insignemente acolhe o Ser, se inquire pelo seu sentido, é iniludível que a Arte na sua essência, na sua origem, é instauração poética da verdade.
4.1. Todavia, a essência da Dichtung, da Poesia, não se esgota nesse momento originário, qual referente de uma concepção ontológica nova, mas antes suscita, e de modo não menos relevante, um novo modelo interpretativo do ente na sua totalidade.
4.2. Sabemos, pois, que ao homem desgarrado da postura metafísica ocidental, será impossível “guardar” tanto um hino de Hölderlin como uma ópera de Mozart ou o toque genial do piano de Glen Gould. E isto porque, não se tendo na verdade que tais obras desdobram, a instituem no espaço próprio de tais mundividências, e assim, desenraízam de tal modo a obra que esta não pode mostrar o verdadeiro inicial e in-habitual de onde brotou.
4.3. Desenraizar a obra do seu Mundo, eis em que consiste roubar-lhe a poesia: «Enquanto posição em obra da verdade, a arte é Poema. E é não apenas a criação, mas também a guarda da obra que é no seu modo próprio, poemática; pois uma obra não permanece real enquanto obra senão nos demitirmos nós mesmos da nossa banalidade ordinária e entrarmos naquilo que a obra abriu, para assim conduzir a nossa essência a ter-se na verdade do ente»[4].

§ 5. Manifesta é, nesta ordem de ideias, a assumpção do homem enquanto ente que, no fulgor da obra, se transporta para uma nova ordem de todo distinta da que configura a sua existência quotidiana. A obra é também uma via, um poro, no qual o homem se en-via para a co-respondência de aquilo que a própria obra abriu, a saber, a mesma fonte matricial onde se re-conhecem a origem da obra e a essência do homem.
5.1. A relevância da obra como mostração poética ganha a sua concretude no conluio, em uma mesma matriz, do homem e da obra enquanto mostração da verdade do ente. Só uma tal co-respondência num momento originário torna possível ao Da-sein, o re‑conhecimento do que, na obra, o concerne a si e ao sentido que confere ao seu existir historial: «O projecto verdadeiramente poemático é a abertura daquilo em que o Dasein está, enquanto historial, já arriscado»[5].

§ 6. Irradiação mostrante de um Mundo que desdobra a sua ordem a partir da relação do Da-sein ao aberto do Ser, mas também ente capaz de possibilitar o total desgarramento do homem em relação ao que lhe é familiar e habitual, transportando-o para um outro aí que não aquele em que tem o costume de estar, a saber, para o topoz originário, em que ele mesmo devém ser-aí, eis como podemos caracterizar a poética da obra de arte.

§ 7. Sob a base do terreno filosófico em que nos situamos, é manifesto que a tematização heideggeriana sobre a Arte e a Poesia não acolhe a possibilidade do que poderíamos chamar uma «hermenêutica criativa», privilegiante de um paqoz estético. O choque que provoca a existência mesma da obra poética não é desencadeado por um viso desta que, pela sua força, provocaria prazer ou outra qualquer emoção.
7.1. Não é, de facto, aí, que reside para Heidegger, a verdade da experiência estética, sendo esta negada se assumida numa dimensão que exclusivamente a reconduza à aisqhsiz. Todavia, parece-nos, que se não é dessa aproximação sensível à obra que provém o poder desgarrante e “qauma-tico” desta, não deixa o filósofo de conceber uma certa “disponibilidade receptiva” que poderíamos assemelhar a um acto de escuta, numa ressonância que aproxima a poética da obra a essa outra, de todas a mais mostrante, residente no poder nominativo da palavra.
7.2. A postura do Da-sein perante a obra ‑ e o combate que se trava nela entre clareira e retraimento, é um estar co‑respondendo ao que na obra silenciosamente se diz, não propriamente porque a obra “fale”, mas porque o homem incontornavelmente lhe acolhe o apelo, apelo que não o do ente-obra mesmo, mas do que nele se oferece: o brotar longínquo do ente que a obra de arte dá a ver.

§ 8. Detentor do poder da palavra, esse meio conivente do ser de cada ente, o homem é perante a obra desenraizado da marca quotidiana do ente, para, numa espécie de nostalgia, sentir a dor que lhe provoca a proximidade desse longínquo: o Ser que o ser-obra enquanto tal lhe revela.
8.1. Querer e saber, eis as características do homem como ente disponível para a escuta da obra enquanto instância em que o ser apela: «Querer, é com toda a sobriedade o pôr em liberdade que possibilita ir para lá de si mesmo em existindo e em se expondo à abertura do ente tal como esta se manifesta na obra. (...) A salvaguarda da obra é, enquanto saber, a calma e lúcida instância na e-normidade da verdade advindo na obra»[6].
8.2. A obra de arte poética é, nesta conformidade, lugar em que se potencia o acto de transcensão do humano em relação ao familiar e habitual na prossecução de uma verdade mais primeira. Conceder a própria possibilidade de excedência em relação à sua vida interior, na via do horizonte em que o homem co‑responde mais ao seu ser, a saber, à verdade, eis a dádiva principal que a obra poética concede ao Da-sein.

§ 9. A instauração da verdade como começo e a Arte como Poesia, é uma das teses a que dedicaremos, especialmente, a nossa atenção. Esta ideia, latentemente presente no corpus filosófico heideggeriano, emerge, neste contexto, com particular acuidade. Faz decorrer essa outra tese que formulamos no seguinte enunciado: a Arte, na medida em que deixa advir, com a máxima fidelidade, a verdade do ente no seu ser é, por excelência, Dichtung, Poema. Esta é uma das teses a que naturalmente chegámos, aquando da nossa auscultação da essência da Arte.
9.1. Como observa Heidegger, «a verdade como clareira e ocultação acontece na medida em que se poetiza. Toda a arte, enquanto o deixar-se acontecer da adveniência da verdade do ente como tal, é na sua essência Poesia. A essência da arte, na qual repousam simultaneamente a obra de arte e o artista, é o pôr-em-obra-da-verdade. A partir da essência poetante da arte acontece que, no meio do ente, ele erige um espaço aberto, em cuja abertura tudo se mostra de um outro modo que não o habitual. (...) a poesia é aqui pensada num sentido tão vasto e, ao mesmo tempo, numa união essencial tão íntima com a linguagem e a palavra que tem de permanecer em aberto se a arte, e mais propriamente em todos os seus modos, desde a arquitectura à poesia, esgota a essência da poesia».[7]

§ 10. Correlativamente, tornaremos visível a peculiar concepção heideggeriana de Poesia. Não conceberemos a Poesia como um errante inventar do que quer que seja, ou como um oscilar permanente e perpetuante da mera representação e imaginação no irreal. Pensaremos essa Arte da Palavra, enquanto projecto clarificante, como aquilo que se desdobra na des-ocultação, como um modo do projecto clarificador da verdade, como obra suprema da Linguagem.
10.1. E, ainda, como o lugar privilegiado da instalação da Geviert, noção em derredor da qual gravita o posicionamento onto-artístico do nosso autor, o pensador do Sentido do Ser que se mostra pela Linguagem. Pensar a Linguagem, ou mais propriamente, a essência da Linguagem na sua relação com a essência da Poesia, torna-se absolutamente imperativo neste passo da nossa investigação.

§ 11. Numa primeira abordagem, verificaremos que o conceito heideggeriano de Linguagem não é sinónimo de uma certa forma de expressão oral e escrita do que importa comunicar, como o que transporta apenas, em palavras e fases, o patente e o latente visado como tal, mas como o que nomeia pela primeira vez o ente, sendo este nomear o que trás o ente à palavra e ao aparecer. Heidegger apresenta-nos uma concepção absolutamente singular de Linguagem, ao conceber este dom do Da-sein como «dizer projectante» que é, por sua vez, e primacialmente, Poesia.
11.1. Clarificar essa expressão, «dizer projectante», é imprescindível para compreendermos a noção de Poesia apresentada pelo nosso filósofo: a fábula da des-ocultação do ente, a fábula do Mundo e da Terra e do espaço de jogo do seu combate, o lugar de toda a proximidade e afastamento dos deuses.
11.2. Este «dizer projectante», pelo qual definiremos, num primeiro momento, a Poesia, prepara o dizível e faz ao mesmo tempo advir o indizível do Mundo. É por um tal dizer que comungam, ao mesmo tempo, para um povo histórico, a sua essência e a sua pertença à história do Mundo.

§ 12. Daqui emerge a tese que nos permite entender porque é que a obra de arte ao abrir o Mundo e ao fazer assomar a Terra, instaura-se, ela-mesma, num espaço de combate, onde se traça a intimidade da co‑pertença dos combatentes e de onde ressalta a harmonia dos contrários.
12.1. É este o espaço sagrado e consagrado dos deuses, onde se encontra entre estes e os homens, o artista, e mais particularmente, o Poeta, o obrante da Poesia (Dichtung): a arte da palavra pela qual se celebra a essência da própria Arte; a Arte consagrada entre todas as artes pelo seu nomear inaugural e fundante, pela sua proximidade com o sagrado, pela sua consagração e salvaguarda da Terra, pela sua dimensão essencialmente historial que transporta, a um tempo, a voz de um Povo e a voz do Deus.

§ 13. Torna-se claro que por Dichtung não se entende, em sentido próprio, a poesia enquanto género literário, pois o Poema jamais é tomado como o resultado de uma mera “vagabundagem do espírito”, ou como um deixar fluir da imaginação até terminar na irracionalidade. Dichtung, enquanto verdadeiro Poema, é um projecto de iluminação na abertura, na Lichtung, na clareira, do Ser.

§ 14. A Poesia é, radicalmente falando, a obra suprema da Linguagem. A reflexão heideggeriana sobre a linguagem não é mais uma mera perspectivação da relação possivelmente patenteada entre a linguagem e a realidade, sobre a propriedade ou impropriedade da mesma para descrever as coisas, nem tão-só uma reflexão sobre um "aspecto" do estar-aí do homem, do seu Da-sein.
14.1. Essa reflexão é a forma mais eminente da experiência e da expressão da própria realidade, já que é na linguagem que se dá a abertura do Mundo, que se dá o ser das coisas e, por isso, o verdadeiro modo de perscrutação daquilo que se afirma como existente só pode ser atingido através do auscultar do significado primordial das palavras: «Die hier waltende Fragwürdigkeit sammelt sich dann an den eigentlichen Ort der Erörterung, dorthin, wo das Wesen der Sprache und der Dichtung gestreift werden, alles dies wiederum nur im Hinblick auf die Zusammengehörigkeit von Sein und Sage», quer dizer, «o que aqui se impõe como digno de questão reúne-se então no genuíno lugar da explicação, onde se toca a essência da linguagem e da Poesia, tudo isto, uma vez mais, tendo apenas em vista a pertença recíproca do ser e da palavra»[8].

§ 15. Consequentemente, verificaremos que as coisas não são fundamentalmente coisas presentes no mundo‑exterior, mas na palavra que as nomeia originariamente e as torna acessíveis, até mesmo na presença espacio‑temporal. As coisas são, no sentido do recolectante "fazer-morar", só na linguagem que é essencialmente Poesia: eis como deveremos entender a afirmação segundo a qual é a palavra que "torna coisa" (be-dinget),a coisa (Ding).
15.1. Se quisermos compreender este modo de ser da coisa na palavra devemos pensar, antes de mais, no gosto heideggeriano pela etimologia que é justamente uma maneira de remontar, através das vicissitudes e das conexões das palavras, à dimensão autêntica, ontológica, da coisa em si mesma nomeada.

§ 16. A figura etimológica, a escavação do significado a partir das raízes verbais e da história das palavras é, na sua mais plena acepção, uma "emergência", um “des-ocultamento", ou se preferirmos, um movimento para a luz..
16.1. Qualquer investigação séria sobre o ente deve adoptar, como ponto de vista, as considerações linguísticas, em virtude da linguagem se apresentar como a chave que abre a porta do des-velamento do Ser, do Homem e do Mundo.
16.2. A palavra essencial, a palavra de origem, é um caminho (Weg), ou melhor, o caminho privilegiado que nos permite pensar, através do depoimento existencial que transmite, o Ser do ente, quer dizer, o Ser daquilo que realmente é, amiúde obnubilado no nosso discurso quotidiano, no seio do qual as palavras perderam o seu referente primordial, remetendo apenas umas para as outras e não mais para o Ser.
16.3. Deparamo-nos, todos os dias, com discursos vazios de conteúdo, pois o modo de significação do que é, emaranha-se na sequência mais ou menos lógica de palavras, no encadeamento de um conjunto de fonemas mais ou menos articulados, mas que perderam de vista a sua veraz significação e alcance ontológico.
16.4. Ora, as coisas só são, realmente, enquanto se dão na proximidade do próprio Ser, tomado como aquilo que funda e abre toda a abertura histórica, embora ele-mesmo não se reduza a uma tal abertura.

§ 17. Perspectivando à luz da tese heideggeriana as vivências quotidianas do «Homo Superfulus», que habita cada vez mais em cada um de nós, não poderemos deixar de afirmar que a palavra e a linguagem jamais são invólucros onde as coisas podem ser empacotadas para o comércio daqueles que as utilizam. Não se podem consumir do mesmo modo que os triviais produtos que a sociedade consumista hodierna nos apresenta e nos "pressiona" a angariar nos tão frequentados hipermercados, onde as palavras, e os livros que as encerram, são comercializadas de modo similar, e quiçá com o mesmo estatuto, de qualquer produto doméstico.

§ 18. O pensamento ocidental esqueceu a máxima fundamental: é na linguagem e, portanto, nas palavras, que as coisas nascem e verdadeiramente são. Afirmar a existência, dizer que uma coisa é, significa falar do ser das coisas, como somente a Linguagem originária pode fazê-lo. Impõe-se-nos, por isso, a refutação da tese que defende a existência de uma arbitrariedade entre o que se diz e o que é, ou seja, entre o Dizer e o Ser, porque em cada sentença que proferimos o Ser é efectivamente nomeado.
18.1. Recusaremos, por conseguinte, a tendência de certo modo nominalista da sociedade contemporânea, particularmente registada depois do advento da Publicidade, que tem feito crer ao comum dos mortais – cujas mentes errantes vagueiam por este universo de quase arbitrariedade semântica ‑ que as coisas ou os objectos da experiência não têm realidade intrínseca fora da linguagem que as descreve e as faz falar.

§ 19. A linguagem opera o des-velamento das significações do Mundo, não havendo, portanto, dois planos: o do percebido e o do conhecido; o do falado e o do expresso. A palavra não introduz um sentido num conteúdo. Ao invés, é o conteúdo que se revela significante na linguagem.
19.1. É definitivamente forçoso destruir a perspectiva metafísica: a linguagem não se torna significante a partir dos objectos compreendidos pelo pensamento e significados, em seguida, pelas palavras; são, antes, os objectos que adquirem a sua plena capacidade de significação a partir da linguagem falada.
19.2. O sentido do Discurso, que Heidegger define em SuZ como sendo «a articulação significativa da compreensão do ser-no-mundo no sentimento de situação»[9], nunca é construído, mas sempre des‑coberto. O mundo mostra-se-nos investido de significações utilitárias e poéticas. Daí que a linguagem seja tomada como uma leitura hermenêutica da experiência, expressão que assume uma vasta e originária significação ontológica, ao indicar a manifestação do carácter linguístico do Acontecimento do Ser.

§ 20. Faremos notar que o homem compreende sempre o Mundo no interior de um projecto interpretativo, cuja linguagem é a sua única justificação.
20.1. Muito embora as coisas existam fora do gesto falado, o Mundo, esse horizonte inteligível que abre acesso aos entes, só existe, em sentido autêntico, na e pela interpretação efectuada através da linguagem. Apenas onde há linguagem há Mundo, quer dizer, uma esfera em permanente transição de decisão e de obra, de acção e de responsabilidade, mas também de arbítrio e de con-fusão.
20.2. A análise existencial não é, definitivamente, senão um estudo do homem no universo do Discurso. O Da-sein determina o modo como o próprio homem se interpreta como ente que fala, e falar equivale a fazer surgir o Ser: a linguagem é um modo do Ser, uma estrutura da Ek-sistência. Porém, não é um existencial entre outros, mas o existencial fundamental no qual todos os outros ganham corpo. A linguagem não é somente uma possibilidade do Da-sein, mas uma determinação essencial do ser-homem, não obstante constituir, a um tempo, a sua grandeza e a sua miséria.

§ 21. O discurso do Mundo é, inextricavelmente, uma palavra do Ser. E a Ek‑sistência é o Discurso que reflecte essa Linguagem fundamental: «a linguagem é a casa do ser» , na qual o homem habita e, deste modo, ek-siste , pertencendo à verdade do Ser que ele próprio vigia. Em Unterwegs zur Sprache , Heidegger afasta toda a falsa interpretação desta metáfora, que aliás é muito mais do que uma simples metáfora: uma casa recolhe passivamente aqueles que abriga, enquanto a linguagem tem o poder efectivo de trazer à luz, de des-velar a essência do Ser e o ser do Homem.

§ 22. A importância crucial conferida pelo filósofo à linguagem na citada passagem de Briefe Über den Humanismus, resulta justamente da firme convicção segundo a qual a linguagem é própria do homem, não apenas porque para além de todas as suas outras faculdades o homem também tem a genial capacidade de falar, de comunicar inteligivelmente através das palavras, mas sobretudo porque apenas por intermédio desta irredutível via, ele tem acesso privilegiado ao Ser.

§ 23. Segundo o mesmo princípio, a função da linguagem é deixar que o Ser seja. Todavia, não é mais o homem que determina o Ser, mas o Ser que, através da linguagem, se revela ao homem e o determina. Esta tese ‑ que nos remete para essa outra pela qual a linguagem se nos apresenta como acontecimento do Ser ‑ para além de inovadora, é absolutamente fundamental para acedermos à compreensão da problemática da sua fundamentação ontológica, em virtude da qual assume um papel verdadeiramente originário que a situa aquém da sua perspectivação habitual como instrumento de comunicação.
23.1. Face à significação atribuída a este modo específico de re-velação, o homem surge-nos apenas como o portador da linguagem ‑ em virtude de a linguagem não radicar na essência do homem, mas manifestar uma essência histórico-ontológica fundamental, sendo segundo esta essência que ela é dita como a «Casa do Ser» ‑ e como tal tem a função, sendo ele o único, de mostrar o Ser por seu intermédio.
23.2. Revelando esse extraordinário poder de manifestar a originariedade e primacialidade da Existência, de fazer advir o Ser à luz, de o desocultar, de o colocar na não-latência e com ele a essência do homem, a linguagem afigura-se como a única morada onde o Ser pode ser realmente acolhido e posteriormente mostrado na sua nudez primordial.
23.3. A linguagem do Ser suporta a nossa linguagem de todos os dias: o Ser é o não-dito e o não-falado de que se alimenta a nossa palavra. O encontro com o para além das palavras é possível porque o Ser, essa Alma da linguagem, é o lugar da nossa permanência.
23.4. A linguagem que nos faz comunicar com o Mundo e com os outros homens, ao conceder-nos a possibilidade de aberturas múltiplas, exprime sempre algo de diferente do que se diz, ou seja, exprime as relações ocultas que as palavras mantém com o Ser, quer dizer, com aquilo que em si mesmo é e não necessita de nada para que seja.

§ 24. Salientaremos, também, que a linguagem é um Acontecimento (Ereignis) que, ao manifestar-se, produz a indicação e a língua. A palavra é a marca do Acontecimento interior à linguagem e a escrita o depósito da tradição do Ser. Ao interrogar-se o Ser, a linguagem arranca constantemente a palavra ao peso significativo da Tradição e a escrita aos limites do signo para a fazer regressar à presença originária que permitiu a sua manifestação.
24.1. Neste sentido, a linguagem reside na diferença interior à palavra do Ser que se inscreve entre o Acontecimento o qual, ao mesmo tempo, des-vela e oculta a letra ou a palavra que morre no limiar da coisa.
24.2. A ideia de uma linguagem transparente ao espírito é seguramente uma ilusão de representação. Há sempre, para além do dito, uma palavra essencial que o ser do ente coloca na presença, torna patente na sua veraz manifestação, mas que não pode ser captada como palavra porque o acontecimento do Ser é a sua marca concomitantemente oculta e des-velada.

§ 25. Se em SuZ a linguagem já ocupava uma posição peculiar, pois, como signo, revelava a própria estrutura ontológica da mundaneidade, nas obras posteriores, nomeadamente em UKW e na conferência intitulada Hölderlin und das Wesen der Dichtung, aparece-nos como o próprio modo do abrir-se na abertura do Ser, principalmente enquanto é pensada como Poesia, essa arte originária da palavra.
25.1. Posto que a abertura do Mundo se dá sobretudo na linguagem, é nela que se pode perscrutar a autêntica inovação ontológica, uma vez que nos é dito que a «linguagem é poesia no sentido essencial»[10], ou como Heidegger refere em Einführung in die Metaphysik [11], «a linguagem é poesia originária (Ur‑dichtung) em que um povo diz o Ser» e, inversamente, a grande Poesia, pela qual um povo entra na sua História, inicia a configuração da linguagem.

§ 26. Dizer que a Linguagem é Poesia, apenas no sentido essencial, significa afirmar que o falar autêntico é criação, abertura, inovação ontológica, uma vez que nem todo o falar é criação, já que comummente se torna um mero instrumento de comunicação, que se limita a articular e a desenvolver, a partir do seu próprio interior, a abertura já aberta.
26.1. Mas, na linguagem essencial instituem-se os Mundos históricos em que o estar‑aí e o ente se relacionam entre si nos vários modos de presença humana no Mundo, o que faz da linguagem, tomada na sua dimensão poética, «o fundo que rege a História do homem», porque, afinal, «o que perdura fundam-no os poetas», diz a quarta palavra condutora de Hölderlin.
26.2. Fundar o que permanece ou fundar o permanecente significa des-velar o Ser para que o ente apareça, só pelos poetas alcançado, os únicos capazes de nomear os Deuses e todas as coisas, naquilo que em si mesmas são.
26.3. O nomear do Poeta não consiste, simplesmente, em atribuir um nome a uma coisa anteriormente conhecida. Falando, o Poeta celebra a palavra essencial, a palavra de origem, e celebrando-a, o ente passa a ser nomeado no que é. Através desta nomeação, torna-se conhecido enquanto é, pois a Poesia é, na sua essência, a «fundação do Ser pela palavra» e esta fundação é «doação livre». Quando os Deuses são nomeados originariamente pelo Poeta e a essência das coisas se torna palavra, a própria existência humana é inserida num contexto firme, ao mesmo tempo que é colocada sobre o terreno desta fundação.

§ 27. A Poesia não é um fenómeno de Cultura ou a expressão de uma "alma natural". É a obra suprema da linguagem, mas enquanto dada como projecto de iluminação na abertura, na clareira (Lichtung) do Ser.
27.1. O Dizer do Poeta é este mesmo projecto de iluminação onde é dito como o ente chega à abertura. Este Dizer que em si mesmo é Poema, nomeia o Mundo e a Terra assim como o espaço de jogo do seu combate. Precisamente por isso, cada língua é o surgimento do Dizer no qual, para um povo, se abre historicamente o seu Mundo e onde é salvaguardada a veracidade da Terra no seu oferecimento original.
27.2. Perseguindo esta demanda originária, a Poesia é, para Heidegger, Pensamento. E o Poeta é o Pensador, por excelência.
27.3. Trata-se aqui do Pensamento tomado na sua dimensão inaugural, onde a língua manifesta a sua essência, que é o dizer do Ser de todos os entes. Pensamento não significa aqui qewria, determinação do conhecer como atitude teórica, ou tecnh, tomada no sentido da reflexão ao serviço do fazer e do produzir, ou praxiz, mas aquilo que pertence (gehören) e escuta (horen) o Ser.
27.4. «Numa palavra, o pensamento é o pensamento do Ser»[12], dado na musicalidade própria da linguagem originária, das palavras de origem, que se constitui, na escrita heideggeriana, numa poética musical, qual «ars inveniendi» do Pensamento e do Discurso, onde comungam o Poeta e o Músico – Hölderlin e Kreutzer ‑ numa poética da música que incorpora a especificidade da filosofia do nosso autor, pautada por um pensar fundado no ouvido, na audição e não mais no paradigma metafísico da visão.

§ 28. Veremos, como Heidegger não é um pensador da visão, do ver, sentido privilegiado por toda a história do pensamento ocidental, desde Platão. Mas o pensador do audível, do sentido da escuta. Antes de ver, o Pensamento escuta a voz do Ser, que do seu esquecimento se ergue como um apelo. Escuta a voz silenciosa da Terra, que clama num grito de alerta.
28.1. É um pensar auditivo e não visual que emerge nas partituras de Kreutzer ou nos hinos de Hölderlin, como em cada acto de escrita do nosso autor. A aura da música, a musicalidade inerente a todo o ente que é exposto pelo canto do Poeta e pelo «Tom fundamental» da poiesis musical do compositor que percorre os «caminhos do campo», perpassa o ser das coisas que o Pensamento pensa e que o nosso Discurso diz. O Ser e a Terra transportam em si os sons inaugurais, entre os sons mais íntimos do silêncio por onde perpassa a voz e o ouvido do Ser, esse estado de apresentação e de presença.
Ora, «o que caracteriza a música, escreve Heidegger, não é o facto dela nos “falar” daquilo que perante nós não se faz entender, e que, por isso mesmo, ela não tem necessidade da linguagem ordinária, que é aquela das palavras? Dizê-mo-lo, com efeito. Portanto a questão permanece: celebrar uma festa pela música vocal e instrumental, não é celebrar uma festa onde pensamos?»[13].
28.2. A «Escuta», o «Apelo», a «Mensagem», são a pedra de toque, desta tese que desemboca na defesa de uma poética da música em todo o pensamento heideggeriano e, especialmente, nas reflexões tecidas pelo autor sobre a Poesia e sobre a Música, na sua relação com o Pensamento (meditante e não calculante) e com a Linguagem.
28.3. A Poesia é a forma suprema da própria musicalidade do Pensamento que escuta o apelo do Ser, cuja mensagem primordial é dita pelo dizer poético. O Pensamento é, por essência e no seu sentido mais genuíno, poetizar (dichten), segredo da arte de pensar, na qual e para a qual o homem é chamado a existir.
28.4. É, pois, difícil distinguir, neste contexto, a Linguagem Autêntica, o Pensamento e a Dichtung. Em última análise, e não obstante as diferenças conceptuais que possamos evidenciar, estes conceitos – Linguagem Autêntica, Pensamento e Poesia ‑ acabam por se tornar homólogos, homologia que é estabelecida por uma comunidade essencial: «das Sein», o Ser. Poesia e Pensamento radicam exactamente na mesma fonte: o amor à palavra, à palavra essencial que diz o não-dito, que comunica o inefável sempre adiado pela voz do silêncio que comunga no dizer primordial.

§ 29. Dispondo desse poderoso modo de des-velamento ‑ a Linguagem - a Poesia afigura-se como sendo uma forma de alhqeia, tal como a Arte genericamente considerada. Em vez de banirmos os Poetas da cidade, como havia pretendido Platão, urge requerê-los por serem os únicos que privilegiadamente dispõem da radical capacidade de instaurar uma ordem durável, ao nomearem as coisas que permanecem inacessíveis ao vulgo.
29.1. Dizendo o que é o ente na radicalidade do seu Ser, a Poesia instaura-o; e tal instauração possui o carácter de ser um dom fundante e inicial, rebatendo toda a familiaridade da aparência.
29.2. Fundando poeticamente tudo o que é, o homem funda-se a si mesmo. Compreendemos, assim, porque é que o Da-sein é poético (dichtrich) e em que sentido é dito que «de um modo poético habita o homem sobre esta Terra». Habitar poeticamente significa: estar na presença dos Deuses e ser tocado pela proximidade das coisas. Eis o veredicto revelado pela quinta palavra condutora do Poeta da Essência da Poesia.

§ 30. O fundamento do "ser-aí" (Da-sein) humano é, pois, poético, como o próprio acontecer da linguagem primordial que é Poesia como fundação do Ser. Se compreendermos esta essência da Poesia dada como linguagem primordial de um povo historicamente concebido pela qual diz o seu ser, percebemos, ao mesmo tempo, que a essencialidade da linguagem tem que ser compreendida a partir da essência da Poesia, tal como a essência da Poesia é compreendida a partir da essência da Linguagem.
30.1. A linguagem não é apenas criação e inovação ontológica, como já se havia referido, mas, sobretudo, o topoz, o lugar-natural do acontecimento do Ser como o abrir-se das aberturas históricas em que o Da-sein está lançado.
30.2. É a linguagem que "rege o nosso estar-aí" e, por esta razão, dependemos dela de um modo umbilicalmente profundo: «a linguagem não é mais um instrumento disponível para o homem, mas aquele acontecimento que dispõe da maior possibilidade de ser homem». Enquanto tal apropria-se de nós, na medida em que com as suas estruturas, delimita, desde o início, o campo da nossa possível experiência do Mundo: só na linguagem as coisas nos podem aparecer e só no modo como ela as faz aparecer. É a palavra que proporciona o Ser da coisa e todo o falar concreto, autêntico, pressupõe que a linguagem já tenha aberto o Mundo e que também, a nós, nos tenha colocado nele.

§ 31. Toda a problematização da linguagem e, em rigor, todo o seu uso ôntico, requer que ela já nos tenha falado. A linguagem é, acima de tudo e originariamente, mais do que uma faculdade de que dispomos; é um «dirigir-se a nós», sem o qual não poderíamos falar. Se isto significa, antes de mais, que todo o falar autêntico é fundamentalmente uma escrita, não quer dizer, no entanto, que o homem seja um ouvinte passivo, uma vez que a linguagem não é, acidentalmente, um "dirigir-se a nós". Pelo contrário, é nesse "dirigir-se a nós", que somos os seus ouvintes e respondedores privilegiados, que consiste a sua própria essência.
31.1. A Linguagem, afirma Heidegger em SuZ[14], «tem necessidade da fala humana, embora não seja um produto da nossa actividade linguística». Ela é o anúncio, o apelo, a mensagem e nós, homens, somos usados por ela como «mensageiros da voz do Ser».
31.2. A linguagem não se dá senão no falar do Da-sein e, todavia, é verdade que tal falar encontra já delimitadas as suas possibilidades e os seus contornos na própria linguagem, ainda que não como uma estrutura rígida que o obrigue, mas como um apelo a que responde.
31.3. É neste sentido que devemos entender porque é que Heidegger retoma do ”Poeta do Poeta" ‑ o romântico Hölderlin, anunciador do modernismo na Arte e na Poesia ‑ a caracterização do homem como Diálogo, porque é que o ser do homem se funda na linguagem e porque é que só acontece verdadeiramente no Diálogo:«Muito experimentou o homem ./Muitos celestiais nomeou/desde que somos um diálogo/e capazes de nos ouvir uns aos outros», lê-se na terceira palavra condutora de Hölderlin, que fala do dizer humano na sua dimensão de alteridade.

§ 32. Entenderemos, portanto, a Linguagem como a forma representativa da veracidade do que é comunicado, sempre numa relação com a alteridade. «Por isso, a linguagem, o mais perigoso de todos os bens, foi dada ao homem ... para que testemunhe aquilo que ele é». A Linguagem, refere a segunda palavra condutora, é, a um tempo, o dispositivo peculiar do homem e o testemunho da sua id-entidade. A sua grandeza e a sua miséria, qual modo de expressão e de comunicação que encerra em si uma estrutura tão ambígua como a que invade o Fogo de Prometeu, roubado ao Sol para presentear a Humanidade recém erguida
32.1. Ainda e sempre a Linguagem. A Linguagem que é «a casa do Ser» (Die Sprache ist das Hause des Seins), sendo por excelência os Pensadores (die Denkenden) e os Poetas (das Dichtenden) os guardas (der Wacheter) desta habitação (dieser Behausung)[15], embora os Poetas ocupem um lugar de primazia, uma vez que a «poesia penetra toda a arte, todo o acto pelo qual o ser essencial (das Wesende) é desvelado no Belo»[16].
32.2. Significará esta afirmação que a Arquitectura (Bauen) e as Artes Plásticas (Bilden) devam ser necessariamente fundadas sobre a Dichtung? Serão todas as Artes meras variantes da arte da palavra?
32.3. Temos de nos desviar deste impasse, quiçá bizarro, na medida em que a Poesia é apenas um modo entre outros do projecto de iluminação do Ser. Todavia, sendo a sua essência a Linguagem, digamos que a Arquitectura e as Artes Plásticas só são possíveis, só advêm verdadeiramente nesse projecto de iluminação do Ser, em virtude da abertura operada pelo dizer e pelo nomear poético. Só por meio da linguagem podem ser efectivamente guiadas. Todas as artes, são cada uma a seu modo, Dichtung, Poema, «dizer projectante», no interior da clareira do Ser advindo em obra.

§ 33. A Poesia é pensada precisamente a partir da poihsiz, qure dizer, como um dos modos de manifestação do Ser. A essência da Poesia apreendida a partir da experiência grega do pensar, brota do Ser como do seu fundamento original. A questão da essência do poético, bem como a da Arte, não pode ser pensada senão a partir da «Questão do Ser».
33.1. Quando o Ser não é mais compreendido no horizonte do tempo, a historicidade poética manifesta-se como o domínio próprio onde a verdade do Ser é colocada em obra. Longe de exprimir simplesmente uma Cultura, a Poesia torna possível toda a Cultura. Por conseguinte, se a Arte é na sua essência Dichtung, a essência da Dichtung é precisamente a instauração da verdade.

§ 34. Na sequência das teses apresentadas sobre a Poesia e sobre a Linguagem, e não obstante as múltiplas alusões já proferidas sobre o Poeta eleito, é nosso propósito dar a conhecer de que modo as reflexões heideggerianas sobre a Poesia, encontram a sua cabal elucidação em Hölderlin und das Wesen der Dichtung, texto de análise obrigatória no que concerne à demanda pela essência da Poesia, nos domínios da poética da música, e nos restantes escritos incluídos em Erläuterungen zu Hölderlins Dichtung, e Hölderlins Hymnen «Germanien» und Der «Rhein», onde escutamos as mais preciosas palavras sobre os nostálgicos, solitários e intempestivos poemas do Poeta que dita, para Heidegger ‑ em vez dos mais notáveis, Homero, Virgílio ou Dante ‑, a «essência essencial» da Poesia.
34.1. Interessa-nos apontar, particularmente, os traços mais marcantes que perpassam o diálogo estabelecido entre Heidegger e Hölderlin, assaz fecundo desde os escritos desenvolvidos pelo filósofo a partir de 1934. Referimo-nos, nomeadamente, aos comentários tecidos a quatro dos hinos do Poeta: «A Germania», o «Reno», «Recordação» e «O Istro», de onde desembocam uma série de conferências proferidas pelo filósofo entre 1936/68, posteriormente coligidas em Erläuterungen zu Hölderlins Dichtung.
34.2 O mesmo procedimento será adoptado, no que concerne aos restantes «poetas de Heidegger»: Sófocles, Rilke, Char, Trakl e Hebel, quais mostrantes privilegiados desse dizer originário, desse momento inaugural de coligação primeira da Poesia e do Pensamento, do canto da Natureza, da habitação poética da Terra Natal, da re-união do humano e do divino.
Na sequência das reflexões sobre Hölderlin também eles elucidam, embora, segundo Heidegger, de um modo menos enfático, essa importante missão do canto poético em tempo de infortúnio, e partilham do mesmo estatuto que Homero manteve entre os primeiros gregos: .educador e guia do Povo, sacerdote e profeta. Os textos «Porquê os poetas ...? » e «Unterwegs zur Sprache» são naturalmente a consagração deste ponto central da nossa investigação.
34.3 As teses que vemos explicitamente desenvolvidas nestes escritos, encontram-se em embrião desde 1927, com a publicação de SuZ. Concernem aos pontos nevrálgicos de toda reflexão heideggeriana, centrando-se, particularmente, nos seguintes temas:
a) A pergunta pelo ser do ente, pela natureza da «ousía», mote do pensamento ocidental, percorrido nas múltiplas formas em que se metamorfoseou ao longo da história da filosofia, nos conceitos de «realitas» e «actualitas», na problemática da «creatio» que proporcionou a adveniência da «possibilitas»;
b) A proeminência da categoria da «existentia» concedida pela ontologia medieval, no quadro de uma interrogação pela «res», entendida no sentido da efectividade do real/causado, fundamental para a preparação do terreno de emergência da concepção moderna de Natureza, qual reunião de factos espácio‑temporalmente determinados;
c) A concepção moderna da Natureza ordenada segundo a legalidade matemática, que rejeitámos, desde o início, em prol da sua visionação como Fusiz, tomada no sentido grego de «crescimento», pensada e sentida aquém dos critérios de uma Natureza operatória, da Natureza dada como fundo disponível, qual guia da edificação de uma civilização técnica, drasticamente organizada à escala planetária.
d) A evocação da Natureza que educa os Poetas, estendendo maravilhosamente a sua tarefa a toda a «presença». A Natureza que desenvolve a sua presença na obra humana e na história dos povos, nas constelações e nos deuses, mas também nas pedras, nas plantas e nos animais, nos rios e nas tempestades, como Heidegger refere explicitamente no seu comentário ao poema de Hölderlin «Wie wenn am Feiertage», incluído em Erlaüterungen zu Hölderlins Dichtung;
e) O estar na proximidade dos «Caminhos do Campo», respirando a pureza atmosférica da mais verde e viçosa floresta, onde sentimos o silêncio primordial de todo o canto; o modo primeiro de estar junto do mais próximo, do mais originário e do mais simples; o revisitar do ambiente bucólico da serena vida do Campo, particularmente exemplificada nas telas de Van Gogh e nas partituras de Kreutzer, permanecer aí com o camponês que ama a Terra, que a cultiva ao mesmo tempo que salvaguarda a Natureza na sua mais bela e divina potência e omnipresença em todas as coisas. E, finalmente, sentir o inaltecimento do Sagrado que a Natureza aloja, esse lugar recôndito onde repousa a palavra do Poeta;
f) A figura do Poeta, os traços que perfilam o seu rosto mais do que humano, move também, a partir «dos poetas de Heidegger», o nosso discurso sobre a essência da Poesia, sobre os domínios da poética musical, qual aura envolvente dos mais fecundos pensamentos do filósofo da Floresta Negra.
g) Pensaremos o Poeta, na silhueta de Sófocles, Hölderlin, Rilke, Char, Trakl e Hebel, como aquele que oferece ao povo o dom celeste, o único de coração tão puro e inocente como os infantes, cujo canto testemunha a presença dos deuses na proximidade da insustentável leveza do Éter.
34.4. Mais especificamente, reflectiremos sobre o ser Poeta, a partir de Hölderlin que canta, segundo Heidegger, «a essência essencial» da Poesia, entendida não como um conceito genérico resultante do estudo comparativo das múltiplas espécies encontradas, mas pensada a partir do que a faz despoletar: o apelo do Ser que se diz na novidade instante do seu próprio aparecer.
34.5. É da natureza audível do Ser que nasce a autêntica vocação do ser Poeta, assim como a potencialidade de a consumar no exercício do verbo. E é a partir desta tese que poderemos entender o postulado holderlineano ressuscitado por Heidegger, segundo o qual a Poesia é «fundação do ser na palavra».
34.6. Verificaremos que tal reflexão sobre a Poesia ocorre no contexto de uma meditação sobre a Pátria e sobre a missão histórica que a Poesia em si mesma encerra, tanto para o Poeta como para o filósofo. Os cânticos holderlineanos sobre a Pátria pautam-se pelo traço da alegria e da festividade que aureolam o regresso e mostram a essência da Poesia como destino e missão do povo alemão, determinam a “consignação poética e pensante das novas possibilidades de ser com que se anuncia a história futura”.
34.7. A reconciliação com a Pátria é a grande pedra de toque. Invoca o exílio do Poeta, a sua rejeição de um mundo que recusou o seu referencial religioso, que se afugentou dos deuses e silenciou a voz da Natureza. Do presente nada resta. O futuro não se adivinha. Mas o passado, sistematicamente revisitado, é o topoz da inspiração poética, o topoz do ânimo imprescindível à consumação dessa vocação poética e profética, ou, ainda, a grande referência pela qual é possível restituir-se à palavra o seu poder de revelar e de deixar-ser.
34.8. O regressar do Poeta ao passado releva dessa nostalgia das origens, do momento inicial, da necessidade de exaltação primeira do Divino, dada pela existência grega que acolheu e epifanizou a luz primeira com que o Deus se tornou presente e se notificou aos mortais.
34.9. O regresso à Grécia simboliza a salvação pela memória da origem, qual tesouro escondido na interioridade da língua, através da qual fala a Terra Natal dos desígnios do seu povo e é resgatado o desaparecimento do último Deus e a morte do sagrado que já não invade o estado presente do mundo.
34.10. A nostalgia evade-se. E o canto do Poeta emerge de um silêncio ancestral. Uma nova aurora da revelação do ser torna-se possível, bem como o firmar do momento da fuga ou da vinda do Deus. É entre a história passada e futura que Hölderlin adquire, então, a mais plena compreensão do sentido da vocação de poeta. A explicação historial da essência da Poesia, aqui se encerra como anúncio profético autêntico do destino.

§ 35. Concluiremos que a Poesia é para Hölderlin, e para Heidegger, segundo a linha interpretativa do nosso filósofo, «a celebração do “Amor que tudo mantém” (...) que, na singeleza da brisa, sempre interpela o poeta, para que leve ao ouvido dos homens o murmúrio da fonte».

§ 36. Suscitar a escuta conservando o ouvido direccionado para a pertença reciproca do Ser e da Palavra, numa espécie de harmonia musical sempre preservada, eis a dimensão em que, latamente, a verdade do Poema se dá a ver na sua nudez primordial. Não só na Arte e na Poesia, porquanto ela está ‘em redor’, borbotando do todo do Mundo, e do Ser. É este todo uma imensa obra de arte poética-musical, continuamente espantando pela sua e-normidade?

§ 37. Por excesso ou por defeito, o conceito de Arte descaracteriza-se, perdendo a sua pre‑valência como mostração da verdade pensada a partir de uma poética instauradora, na sua musicalidade inicial, uma vez que não é só por esta que a verdade se manifesta, perdendo igualmente a sua especificidade se pensada a partir do conceito de origem. Afirma o filósofo no Posfácio de UKW: «As considerações precedentes concernem ao enigma da arte; o enigma que a arte é ela mesma»[17].
37.1. Ora, no topoz da origem tudo é misterioso: a Arte, como a obra poeta, do músico ou do pintor, como o pensar, como o ente, como o homem. Na tarefa de especificar o que seja a Arte e a Poesia, isto de a pensar a partir da origem inefável, da fonte matricial do ser, do brotar-ser, pode constituir um último recurso, mas não permite resolver o problema, e nada acrescenta de positivo à noção, por nós estudada, de poética instauradora e de poética da música..
37.2. Conquanto esta categoria permita dilucidar a especificidade da postura da obra de arte, ela permanece todavia impotente relativamente à determinação da essência da própria Arte, a proveniência inicial desta sempre recaindo no domínio para nós insuperavelmente inexplicitável e misterioso. Heidegger propondo enigmas ... Pretensão do filósofo, ao querer ser Esfinge? Ou erro deste nosso estar metafísico, que nos não deixa ser Édipo?

II – Ojectivos e Linhas Gerais de Investigação

§ 1. Pensaremos a Poesia como obra de arte, e o Poeta como ente exemplificador do ser do artista, sempre em co-relacionamento com a «Questão do Ser». Pensaremos a Poesia e a Música (bem como a Pintura e todas as Artes), com a questão do sentido do Ser, em função da problemática da sua origem, no intuito de compreendermos esse «passo atrás» que nos permite remomerar o acontecimento primordial de todas as coisas e chegar ao início da aventura primeira do Homem com o Ser, ao começo originário do Pensar do Ser pela Palavra essencial, a única capaz de nos doar e de nos traduzir o destino historial do Ser e da Essência do Homem. Remontaremos à «Grande Poesia», à «Grande Arte», como caminho condutor do nosso «estar-aí» histórico, do «ser-aí» projectante de um povo num Mundo e numa Terra que temos por obrigação conservar e salvaguardar, contra toda a destruição ou vandalismo ecológico.

§ 2. Revisitaremos Rilke, o poeta que mergulha Heidegger no âmago da modernidade, onde encontramos desenvolvidos alguns dos grandes temas do pensar heideggeriano. Rilke, “mal tratado” pelo nosso filósofo, ao mesmo tempo que intencionalmente rememorado, em tempo de indigência, em «Porquê os Poetas ...?» ‑ depois de mais uma consagração de Hölderlin e, noutros textos de Sófocles, Char e Trakl. Rainer Maria Rilke, o poeta do Aberto, da diferença ontológica, da salvação da Terra, do Começo, dos Contrastes, qual cantor órfico da Vida e da Morte, do Visível e do Invisível, dos Anjos e dos Homens, do In-habitual, mas também do Jogo, da Gravitação, ou da Esfericidade.

§ 3. Referir-nos-emos, do mesmo modo, a Sófocles, Char, Trakl e Hebel, amigos da casa do mundo que nos convidam a habitar autenticamente, a habitar poeticamente nesta Terra assim desolada, quais mensageiros do divino, do canto órfico, uma vez traído por um simples olhar para trás. Também poetas do canto da Terra Natal e da Palavra do Ser que, tal como a Lua, transporta consigo a mais doce luz. São enaltecidamente os poetas da Geviert, da Palavra simples, das “palavras de origem” que enobrecem o Dizer poético, da migração humana da nascença para a morte ‑ temas igualmente centrais da filosofia heideggeriana.
3.1. É nosso intuito explanar as teses centrais da respectiva obra poética, proferindo as nossas interpretações, a partir da própria hermenêutica heideggeriana. Compreender as teses do filósofo sobre a Poesia e sobre o lugar do canto dos Poetas, e assim re-erguer, com a consistência e o rigor adequados, o Poeta da essência da Poesia, a partir dos esclarecimentos que Heidegger tece a alguns dos seus principais escritos.

§ 4. Assim, pretenderemos demonstrar:
a) como a obra de arte poética, enquanto fazer específico do Da‑sein, do nosso ser‑aí ontologicamente fundado, pertence ao Ser e dele recebe a sua determinação essencial;
b) como a obra de arte poético-musical faz provir a Terra celebrada pelo canto do Poeta, e como manifesta o desabrochar inaugural da jusiz, esse fundo oculto, mas essencial a toda a obra de arte, não havendo obra que não lhe pertença, embora se encontre, hoje, violada e esgotada até aos seus últimos redutos, por esta humanidade esquecida do sentido do Ser, mas que a obra de arte, a Poesia, «essência essencial» da Arte não deixa de presentificar na sua autenticidade iluminatória.

§ 5. A partir da reflexão heideggeriana sobre a Poesia, a Linguagem e a Arte, centrar‑nos-emos sobre a natureza específica das relações patenteadas entre a Arte, a Poesia, a Linguagem e a Música, pronunciando‑nos, numa primeira parte, sobre a legitimidade do corolário da promoção da Poesia a essência da Arte, sobre a questão essencial que pergunta «Porquê os poetas em tempo de infortúnio?», traçando a missão da Poesia nos Tempos Modernos, correlativamente com o lugar de destaque conferido ao canto dos Poetas, no âmbito da temática central que move o nosso estudo: «uma poética da música»
5.1. Pensaremos a Poesia como arte originária da palavra, como um acto de fundação que é «doação livre». Explicitaremos o sentido que devemos conferir à tese que nos apresenta a Poesia como obra da linguagem, que é «a Casa do Ser», como forma de des-velamento do Ser, do Homem e do Mundo.
5.2. Neste contexto, torna-se oportuno desenvolver uma abordagem reflexiva sobre as noções de «poética», «poética da música», «escuta», de «anúncio», de «apelo», de «mensagem» e de «diálogo», bem como de «discurso», na sua relação com as significações utilitárias e poéticas do Mundo.
5.3. Falaremos do discurso poético-musical do Mundo como palavra do Ser e do universo do discurso na sua correlação com a análise existencial do Da-sein ‑ cuja linguagem manifesta a originariedade da Existência ‑ do Homem como Da-sein, o «Pastor do Ser», o guardião e o mostrador do Ser pela linguagem poética.
5.4. Reflectiremos, ainda, sobre a relação patenteada entre Poesia, «criação», «abertura» e «inovação ontológica», verificando de que modo, pela Poesia, se instituem mundos históricos e como o habitar poético do Da-sein nos conduz à presença dos deuses e à proximidade das coisas.
5.5. Centrar-nos-emos, em última instância, e na sequência das questões já problematizadas, sob os esclarecimentos tecidos pelo nosso autor à Poesia de Hölderlin, «O Poeta do Poeta», no intuito de indagarmos sobre a essência da Poesia e sobre a essência da Linguagem, seguindo o caminho delimitado pelo conteúdo significante das «cinco palavras condutoras», proferidas pelo Poeta da essência da Poesia.
Pensaremos a Poesia como acto originário de fundação do Ser pela palavra, o poetizar como a mais inocente de todas as ocupações, a Linguagem, «o mais perigoso de todos os bens», como privilégio do homem e testemunho da sua id-entidade, e o próprio homem como Diálogo, qual ente privilegiado no seio da Existência que, pela boca do Poeta, sabe que onde reside o perigo se encontra, também, a salvação. O Homem, essa “figura recente” na história do saber, que, como Da-sein, ainda habita poeticamente nesta Terra assim dominada.
5.6. Salvaguardaremos, com Heidegger, o privilégio da Poesia, entre as artes, e, consequentemente, o privilégio do Poeta, como arauto de toda a significação artística. Este ente singular no seio da Existência, funda o que permanece e retém a dimensão essencial do homem como Diálogo. O Poeta, o portador da palavra inaugural pela qual um Povo histórico diz o seu ser, qual mensageiro da palavra divina e do canto da «Terra silente».
7. Louvar, com Heidegger, os Poetas de Heidegger e o Poeta em quem encarnou a essência da Poesia, seguindo, numa tentativa de auscultação dessa essência, as suas «cinco palavras condutoras», destacadas e analisadas pelo filósofo, autênticos caminhos iluminatórios, motes de reflexão sobre temas absolutamente cruciais e cada vez mais pertinentes neste mundo de vulgarização do dito e da vacuidade da linguagem:
a) o Poetizar, essa ocupação mais desinteressada e mais pura do pensar;
b) o Diálogo, a Escuta/Audição e a Comunicação na sua dimensão ôntica e ontológica;
c) a Linguagem, esse elemento de identificação da especificidade do humano que é aqui tomada pelas suas raízes mais fundas, como o que privilegiadamente abre a clareira do ser e traz à luz o dizer no seu estado absolutamente primeiro, embora se nos apresente, também, como o mais perigoso de todos os bens à disposição do Da-sein;
d) o lugar do Poeta, em tempo de infortúnio, esse sacerdote, visionário e autêntico des‑velador dos mistérios do Mundo, «Pastor do Ser» e da Verdade, instaurador da «Serenidade», qual meio de salvação originária e irradiação luminosa do Mundo;
e) a possibilidade da habitação poética do Homem.
5.7. Manteremos vivo o intuito de mostrar como esta perspectivação do discurso artístico heideggeriano apresenta uma relação de profundo entrelaçamento com o estatuto e papel ocupado pela linguagem ‑ falar da Poesia como essência da Arte é, a um tempo, falar sobre a essência da Poesia, sobre a essência da Linguagem e sobre a essência do Homem, não propriamente sob um ponto de vista antropológico, mas ôntico-ontológico ‑, na compreensão onto-artística de um Mundo desenraizado do seu fundamento primordial, esquecido por um pensar que jamais faz repousar a sua morada na «Casa do Ser».
Neste sentido, as incursões poético‑onto‑antropo‑lógicas da nossa investigação serão uma constante, uma vez que a autêntica compreensão do fenómeno artístico e do fenómeno poético-musical – de que o Poeta e o Músico são os expoentes supremos ‑, em Heidegger, exige que procedamos à recuperação dos pontos nevrálgicos dos arautos da indagação primordial do Ser e do Homem, do Ser, do Pensar e do Dizer que a Arte, por si mesma, e em particular a Poesia, tem o poder de re-velar.

§ 6. Os pressupostos de toda a nossa problematização onto-artística, aqui apenas sumariamente enunciada, centram-se nos seguintes pontos:
6.1. Compreender Heidegger não significa tão-só mudar completamente o nosso olhar sobre este Mundo e sobre esta Terra que ainda habitamos. Mas, sobretudo, indicar o caminho da plena autenticidade a traçar pela visão de nós mesmos, seres errantes assim projectados numa existência de liberdade e de responsabilidade, seres‑no‑mundo e seres-para-a-morte, que procuramos algures o esquecido sentido do Ser, a sua presença originária, as formas mais radicais de des-velamento do mistério da simples gratuitidade de todas as coisas que são e que, pela Arte, qual forma privilegiada do fazer humano, se dão no seu desfloramento primordial.
6.2. Perguntaremos, a nós mesmos e ao Mundo, com que arte de Poeta poderemos habitar nesta Terra assim dominada pela civilização técnico-científica, que nós próprios edificados em nome do tão famigerado progresso da humanidade, onde a salvaguarda da originariedade do Ser e do Homem parece não ser mais possível, apesar de, neste tempo de infortúnio, onde cresce o perigo residir também o que salva?;
6.3. Pensar a filosofia de Heidegger é pensar, apesar de tudo, toda a filosofia, todas as interrogações que colocámos e continuamos a colocar sobre os planos do Ser e do Ek‑sistir. É, ainda, aprender a pensar de modo in-habitual, porque somos inevitavelmente conduzidos a recuperar essa ligação primeira entre o Pensar e o Ser, a recuperar o sentido do Ser perdido nas tramas da Metafísica que tudo subordinou aos enunciados da Lógica. O Ser, qual fundo fundante do nosso Da-sein, qual fundamento do brotar e perpetuar de todos os entes, qual fonte matricial que se mostra no seu ocultamento como a predominância do desabrochar. O Ser qual solo natal evocado pelos poetas, decifradores de enigmas e redutores do acaso, portadores da voz primeira, os amigos da «casa do mundo», mensageiros dos apelos da Terra que tudo preserva, quiçá visionários, quiçá seres proféticos entretecidos nas quatro regiões do Ser: o humano e o divino; o terrestre e o celeste.

Notas:
[1] Idem, p. 84.
[2] Idem, p. 84.
[3] Idem, p. 73.
[4] Idem, p. 84.
[5] Idem, p. 85.
[6] Idem, p.75.
[7] M. Heidegger, UKw, in Holzwege, pp. 59 e 62.
[8] Martin Heidegger, “Zusätze”, in Holzwege, p. 74
[9] Martin Heidegger, Sein und Zeit, p.201.
[10] Martin Heidegger, Hölderlin und das Wesen der Dichtung, p. 40.
[11] Martin Heidegger, Einführung in die Metaphysik, p. 37.
[12] Martin Heidegger, op. cit., p. 78.
[13] M. Heidegger, «Sérénité», in Questions III, pp.162 – 163.
[14] Martin Heidegger, Sein und Zeit, p. 13.
[15] Martin Heidegger, Lettre sur L’Humanisme, p. 45.
[16] Martin Heidegger, Esais et Conférences, p. 47.
[17] Idem, p. 88.